
Redação – Em um intervalo de 504 anos, a Espanha passou de primeiro colonizador da Venezuela a uma das dezenas de nações que condenaram a incursão de forças militares dos Estados Unidos (EUA) em território venezuelano. A operação, realizada na madrugada deste sábado, 3, ocorreu sob a coordenação do presidente Donald Trump, e resultou na prisão do líder venezuelano, Nicolás Maduro, que foi levado para Nova Iorque após bombardeios à capital Caracas.
Em declaração divulgada após a intervenção na América do Sul, o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, afirmou que a Espanha não reconhecerá ações que violem o direito internacional. Para Sánchez, que é crítico do regime chavista, a medida “empurra a região para um horizonte de incerteza e beligerância”.
“A Espanha não reconheceu o regime de Maduro. Mas também não reconhecerá uma intervenção que viole o direito internacional e empurre a região para um horizonte de incerteza e beligerância”, escreveu Sánchez no X. A declaração foi registrada depois que o presidente Donald Trump anunciou que os EUA administrariam o país sul-americano até que uma transição “segura” fosse concluída.
Neste domingo, Sánchez voltou a se pronunciar. Ao divulgar um comunicado em conjunto com Brasil, Chile, Colômbia, Uruguai e México, o primeiro-ministro afirmou que a situação na Venezuela deve ser resolvida exclusivamente por meios pacíficos, através do diálogo, da negociação e do respeito pela vontade do povo venezuelano em todas as suas expressões, sem interferência externa e em conformidade com o direito internacional.
Ainda que tenha sido colonizada em 1522, a Venezuela passou a integrar os registros históricos europeus no final do século XV, antes de 1500. O navegador Alonso de Ojeda explorou o litoral venezuelano em 1499, navegando pelo mar do Caribe até o lago Maracaibo. Ele atribuiu o nome “Venezuela” ao território ao associar as palafitas indígenas à paisagem urbana da cidade italiana de Veneza.
Expedições anteriores, lideradas por Cristóvão Colombo, haviam alcançado áreas próximas da região. O território entrou sob domínio do Espanha em 1522, quando teve início o processo de colonização. Quase 290 anos depois, em julho de 1811, o Congresso Nacional declarou a independência venezuelana. A consolidação do novo Estado ocorreu em 1830, com a separação formal da Venezuela da Grã-Colômbia.
O processo de independência incluiu uma série de confrontos militares entre forças patriotas e realistas, segundo apontam historiadores. Lideranças como Simón Bolívar e Francisco de Miranda conduziram campanhas decisivas ao longo do conflito. Em 6 de agosto de 1813, Bolívar entrou em Caracas durante as operações militares que marcaram o avanço do movimento independentista.
Outras reações
Além da Espanha, outros países também criticaram as ações de Trump que derrubaram Maduro na Venezuela. Ainda na manhã de sábado, o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), disse que “esses atos representam uma afronta gravíssima à soberania da Venezuela e mais um precedente extremamente perigoso para toda a comunidade internacional”.
Para o brasileiro, “atacar países, em flagrante violação do direito internacional, é o primeiro passo para um mundo de violência, caos e instabilidade, onde a lei do mais forte prevalece sobre o multilateralismo”. “A ação lembra os piores momentos da interferência na política da América Latina e do Caribe e ameaça a preservação da região como zona de paz”, declarou Lula.
O presidente do Chile, Gabriel Boric, afirmou que o país mantém “total coerência com princípios e valores” que adotou até o momento e repudiou ações militares em territórios soberanos. “Não se trata de apoiar ou justificar ditaduras – o Chile não o faz –, mas sim de quem decide, e com que legitimidade, o futuro de um país”, declarou.
“Hoje é a Venezuela, sob o pretexto do narcoterrorismo e a intenção declarada de controlar seus recursos; amanhã poderá ser qualquer outro país, com qualquer outra desculpa. Soberania e Direito Internacional não são opcionais: são a base de toda ordem legítima“, disse Boric.
Fonte: AGÊNCIA CENARIUM
