
Redação – O Dia Nacional da Visibilidade Trans, celebrado nesta quinta-feira, 29, marca a mobilização histórica de pessoas trans e travestis por reconhecimento e direitos no Brasil. A data tem origem no 1° Encontro Nacional de Travestis e Transexuais, realizado em 2004, em Brasília (DF), quando lideranças do movimento apresentaram ao Congresso Nacional uma pauta de reivindicações, e também chama atenção para os limites entre visibilidade simbólica e acesso efetivo a estruturas como educação, cultura e produção intelectual.
Essa visibilidade não se converte de forma equivalente no campo cultural. No mercado editorial, livros escritos por pessoas trans passaram a circular com mais frequência em universidades, feiras literárias e debates públicos nos últimos anos. Ainda assim, o País não dispõe de dados consolidados que permitam mensurar a participação de autores e autoras trans no mercado do livro, seja em número de títulos publicados, tiragens ou impacto econômico.

A ausência desses dados tem origem histórica. Em tese de doutorado defendida em 2025, na Fundação Getulio Vargas (FGV), o historiador Ícaro Silva Jatobá aponta a “escassez de dados historiográficos sobre o mercado editorial brasileiro e sobre a própria história da literatura LGBT”, identificando um apagamento institucional que atravessa décadas e dificulta a mensuração desse segmento a nível nacional.
Nesse contexto de escassez de dados e fragilidade nos registros institucionais, parte da organização do mercado editorial LGBT tem sido mapeada por estudos acadêmicos. Um desses levantamentos é o de Ana Paula Moreira e Marina Scabin, publicado em 2021, que analisou a representatividade LGBTQIAPN+ no setor a partir da atuação de editoras independentes, dos hábitos de consumo e dos desafios enfrentados por esse segmento.
O estudo aponta que a publicação de obras com temática LGBTQIAPN+, incluindo autorias trans, ocorre majoritariamente fora dos grandes grupos editoriais, concentrada em selos independentes. Segundo as autoras, essa característica limita a presença dessas obras nos principais canais de distribuição e venda do País, o que impacta diretamente sua circulação e reconhecimento no mercado editorial.
A pesquisa também identificou que, mesmo entre leitores que consomem literatura desse grupo, há dificuldade em reconhecer editoras especializadas nesse tipo de publicação. Para Moreira e Scabin, o dado expõe fragilidades nos processos de divulgação e distribuição e ajuda a explicar a baixa presença dessas obras em grandes livrarias e catálogos comerciais, além da dificuldade de produzir dados consistentes sobre circulação e impacto econômico no setor editorial brasileiro.
Obras
Nesta data, com o objetivo de ecoar vozes e destacar obras produzidas por pessoas trans, a REVISTA CENARIUM reúne títulos que atravessam o relato autobiográfico, a reflexão política e a crítica cultural, ampliando o debate sobre autoria, visibilidade e produção intelectual no Brasil.
E se eu fosse puta, de Amara Moira
Publicada em 2016, a obra de Amara Moira narra, em primeira pessoa, a experiência da autora como trabalhadora sexual durante o seu processo de transição, articulando relato autobiográfico e reflexão crítica sobre prostituição, violência e autonomia do corpo trans.

Doutora em Teoria e Crítica Literária, Amara escreve a partir da própria vivência, sem mediações moralizantes, e desloca para o centro da narrativa uma subjetividade historicamente marginalizada na literatura brasileira. Originalmente publicado como blog e depois em livro, o texto passou a circular em universidades, debates públicos e espaços culturais, sendo citado em discussões sobre gênero, literatura e representação.
Transfeminismo: Teorias e Práticas
Escrita por Jaqueline Gomes de Jesus, a obra sistematiza conceitos que articulam gênero, raça e políticas públicas a partir da realidade brasileira. Publicado em 2014, o livro passou a circular em cursos universitários, formações profissionais e debates institucionais, consolidando-se como uma das principais referências do pensamento transfeminista no País.
Professora, psicóloga e pesquisadora trans negra, a autora é doutora em Psicologia Social, do Trabalho e das Organizações pela Universidade de Brasília (UnB) e tem trajetória marcada pela atuação acadêmica e institucional em políticas de diversidade, com passagem por órgãos do governo federal e participação em debates e na formulação de normativas voltadas ao reconhecimento de direitos, como o uso do nome social.

Em 2025, como parte das atividades do Dia Internacional da Mulher, Jaqueline Gomes de Jesus recebeu do Senado Federal o Diploma Bertha Lutz, honraria concedida anualmente a personalidades que se destacam na defesa dos direitos das mulheres e nas questões de gênero. Com a premiação, ela se tornou a primeira mulher trans a receber o diploma, marco simbólico no reconhecimento institucional de trajetórias comprometidas com a promoção da igualdade e dos direitos humanos no Brasil.
Do relato à reflexão
A presença de autores e autoras trans na literatura brasileira pode ser observada a partir de diferentes registros narrativos, que vão do relato autobiográfico à reflexão política e à experimentação artística. Um dos marcos desse percurso é Viagem solitária, de João W. Nery, psicólogo e ativista, considerado o primeiro homem trans a tornar pública sua trajetória no País.

Publicado em 2011, o livro narra o processo de transição em um contexto de repressão social e institucional, e contribuiu para inserir a experiência trans masculina no debate público brasileiro.
Tal percurso é retomado em Velhice transviada, também de João W. Nery, lançado em 2019, quando o autor traz o foco para o envelhecimento de pessoas trans. A obra aborda memória, saúde, solidão e direitos, ampliando o debate sobre transgeneridade para uma etapa da vida ainda pouco representada na literatura e nas políticas públicas.
Para além do “eu”
Se nas narrativas autobiográficas a escrita surge como forma de registro e sobrevivência, em outros campos ela passa a operar como crítica cultural. É o caso de O que é que eu estou fazendo aqui?, de Laerte, que reúne tiras e reflexões da cartunista sobre identidade, gênero e transformação pessoal. Ao incorporar a experiência trans à produção gráfica, Laerte amplia o alcance desse debate para o campo do humor e da cultura de massa, tensionando fronteiras entre arte, política e cotidiano.
A reflexão sobre violência e exclusão aparece de forma mais direta em Não vão nos matar agora, de Jota Mombaça, trans não-binário. O livro reúne ensaios que articulam experiência trans, racialização e necropolítica, conectando o contexto brasileiro a debates contemporâneos de alcance global e reafirmando a escrita como ferramenta de resistência política.
Perfis
Nos últimos anos, a visibilidade da literatura produzida por pessoas trans no Brasil tem sido ampliada por iniciativas independentes, especialmente nas redes sociais. Esses espaços funcionam como curadoria alternativa, ao reunir e divulgar obras que ainda encontram barreiras no mercado editorial tradicional, além de criar canais diretos de circulação e diálogo entre autores, leitores e editoras.
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Fonte: AGÊNCIA CENARIUM
