Ivone Lara: conheça a primeira mulher a gravar um samba-enredo no Brasil

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Foto: Acervo / Ivone Lara

Redação – Quando se fala em protagonismo feminino negro no samba, o nome de Dona Ivone Lara ocupa um lugar central. Cantora, compositora e enfermeira, ela rompeu barreiras em um universo historicamente masculinizado e se tornou a primeira mulher a integrar uma ala de compositores e a gravar um samba-enredo no Brasil. Sua trajetória atravessa o carnaval, a saúde mental e a afirmação da mulher negra como sujeita de sua própria história.

Nascida em 13 de abril de 1921, em Botafogo, no Rio de Janeiro, Ivone Lara cresceu em um ambiente musical. Filha de mãe cantora de rancho e pai violonista, começou a compor aos 12 anos. Ainda jovem, estudou no colégio municipal Orsina da Fonseca, onde teve aulas de música e canto orfeônico com professoras como Lucília Guimarães, companheira de Heitor Villa-Lobos.

Após perder os pais, ela foi morar com o tio Dionísio Bento da Silva, músico que promovia saraus frequentados por nomes como Pixinguinha e Jacob do Bandolim. Ali, aprendeu cavaquinho e consolidou sua formação musical entre o popular e o erudito. Em 1947, morando em Madureira, passou a frequentar a escola de samba Prazer da Serrinha, mergulhando de vez no ambiente carnavalesco.

Foto: Acervo/Ivone Lara

Rompeu a cultura do sufocamento
O estudo “A representatividade feminina e o éthos melancólico no samba ‘Nasci pra sonhar e cantar’ de Dona Ivone Lara”, publicado em 2021 na revista Raído, da Universidade Federal da Grande Dourados, examina como a compositora reformulou a imagem da mulher no samba. O documento destaca que o samba, ao longo do século XX, reformulou-se ao romper um cenário completamente masculino.

Nesse contexto, Dona Ivone Lara surge como uma artista que não aceita o apagamento. Ao integrar a ala de compositores do Império Serrano, Ivone quebrou o estigma de que a criação de samba-enredo era exclusividade masculina. Em 1965, assinou, ao lado de Silas de Oliveira e Bacalhau, o samba-enredo “Os cinco bailes da corte”. Mais tarde, gravaria samba-enredo, consolidando-se como pioneira nesse espaço.

O artigo “Entre o samba e o pensamento feminista negro: práticas de autodefinição em canções sobre o amor”, de Lucianna Furtado, publicado em 2024 pela revista Música, da Universidade de São Paulo (USP), analisa 55 canções autorais da artista e sustenta que sua obra constitui um acervo de resistência, mesmo sem que a artista utilizasse explicitamente esse rótulo.

As canções analisadas revelam que o sofrimento amoroso, recorrente no samba-canção, é transformado em ponto de partida para reflexão e fortalecimento. Em vez de aceitar a dor como destino, a “eu lírica” constrói uma narrativa de superação. Como aponta o estudo, trata-se de “não cancelamento de si mesma”, em enfrentamento à chamada cultura do sufocamento.

Entre o cuidado e o samba
Paralelamente à carreira artística, Dona Ivone Lara trabalhou por 37 anos como enfermeira e assistente social. Atuou ao lado da médica Nise da Silveira, no Hospital do Engenho de Dentro, em um período marcado por práticas psiquiátricas agressivas como eletrochoques e lobotomias. Segundo relatos biográficos, foi ela quem sugeriu a criação de uma sala com instrumentos musicais para integrar o tratamento humanizado.

Em 1970, gravou seu primeiro disco, “Sambão 70”, marcando o início de uma carreira fonográfica que se expandiria por gravadoras como Odeon, Copacabana, Warner, Som Livre e RGE. Em 1982, recebeu o Estandarte de Ouro como destaque da ala das baianas da Cidade Alta do Império Serrano, reforçando sua centralidade no carnaval carioca.

Ao longo da vida, Dona Ivone Lara foi descrita como mulher de tenacidade, vontade e inteligência, herdeira da tradição das “tias baianas” que sustentaram redes de apoio e preservaram a memória negra no Rio de Janeiro. Seu título de “Dona” simboliza essa continuidade matriarcal, unindo acolhimento e autoridade cultural. Ivone Lara faleceu em 16 de abril de 2018, aos 97 anos, três dias após completar aniversário.

Fonte: Agência Cenarium

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