
Redação – Uma em cada cinco crianças e adolescentes brasileiros entre 12 e 17 anos foi vítima de exploração e/ou abuso sexual facilitados pela tecnologia em apenas um ano. O dado representa cerca de 3 milhões de meninas e meninos atingidos no País. As informações integram o relatório Disrupting Harm in Brazil, produzido pelo Unicef Innocenti em parceria com a ECPAT International e a Interpol.
O estudo ouviu 1.029 crianças e adolescentes e o mesmo número de pais ou responsáveis, em entrevistas domiciliares realizadas entre novembro de 2024 e março de 2025. As perguntas consideraram experiências vividas nos 12 meses anteriores à pesquisa. O desenho amostral foi probabilístico em três estágios, com cobertura de 95% no trabalho de campo.
Segundo o relatório, a violência ocorre quando tecnologias digitais são usadas para aliciar, extorquir, produzir, armazenar ou disseminar material de abuso. Essas situações podem acontecer integralmente no ambiente virtual ou combinar interações on-line e presenciais. Em 66% dos relatos, o crime ocorreu por canais digitais, principalmente redes sociais e aplicativos de mensagens.
O Instagram foi citado por 59% das vítimas que sofreram abordagem nesses espaços, enquanto o WhatsApp apareceu em 51% dos casos. Jogos on-line também figuram como ambiente de risco, mencionados por 12% dos entrevistados. A dinâmica mais comum envolve contato inicial em plataformas públicas e posterior migração para conversas privadas.
“Compreender essas dinâmicas é essencial para fortalecer políticas públicas e promover respostas coordenadas entre governos, Justiça, setor privado e sociedade civil”, afirmou Joaquin Gonzalez-Aleman, representante do Unicef no Brasil. Ele destacou que o risco está presente tanto nas interações on-line quanto nas relações do cotidiano, muitas vezes envolvendo vínculos de confiança.
Mark Beavan, chefe da Unidade de Crimes contra Crianças da Interpol, ressaltou que as conclusões oferecem suporte direto às forças de segurança. “As conclusões estão fornecendo recomendações práticas e apoio direcionado, reforçando o compromisso do País com a proteção de crianças na era digital”, declarou.

Dinâmicas do abuso, silêncio e impactos
Quase metade dos casos identificados, 49%, foi cometida por alguém conhecido da vítima. Em 26% das situações, o agressor era desconhecido, e em 25% dos episódios a criança ou adolescente não soube ou não quis identificar o autor. Entre aqueles que conheciam o agressor, 52% disseram que o primeiro contato ocorreu on-line.
A forma mais recorrente de violência foi a exposição a conteúdo sexual não solicitado, que atingiu 14% dos entrevistados. A pesquisa também identificou a prática da “sextorsão“, em que o agressor ameaça divulgar imagens íntimas para obter dinheiro ou mais material. Em um ano, 5% relataram ter recebido ofertas de dinheiro ou presentes por imagens de conteúdo sexual.
Outro ponto de alerta envolve o uso de inteligência artificial generativa. Três por cento dos entrevistados disseram que alguém utilizou IA para criar imagens ou vídeos de conteúdo sexual com sua aparência. O estudo complementa conclusões do relatório Abuso de deepfake é abuso, que reconhece esse tipo de manipulação como violência sexual.
“O Brasil construiu uma base legal sólida, mas há lacunas na forma como a lei é implementada”, afirmou Andrea Varrella, chefe do Programa Justiça e Direitos da Criança da ECPAT International. Ela disse esperar que as evidências reduzam a distância entre a legislação e a prática, garantindo resposta coordenada e centrada na criança.
Os impactos sobre a saúde mental são expressivos. Segundo o levantamento, vítimas apresentam taxas mais altas de ansiedade e têm mais de cinco vezes mais chances de praticar automutilação ou manifestar pensamentos ou tentativas suicidas. A pesquisa associa esses dados ao medo constante de exposição e à sensação de perda de controle.
Em 34% dos casos, as vítimas não contaram a ninguém sobre a violência. Entre os motivos, 22% apontaram não saber onde buscar ajuda, enquanto 21% citaram constrangimento. Também aparecem medo de não serem acreditadas, receio de que outras pessoas descubram e a percepção de culpa.
“É muito difícil convencer alguém de que não é sua culpa quando você acha que teve alguma participação”, relatou um jovem entrevistado. Ele descreveu o peso emocional de se perceber como ator central em uma situação de abuso.
Profissionais também apontam desinformação entre adultos responsáveis. “Às vezes eles culpam a criança e deixam de buscar o real culpado”, afirmou um profissional de justiça ouvido na pesquisa. Ele relatou que essa inversão contribui para o silêncio e para a revitimização.

Manaus: gargalos e desafios na rede de proteção
Manaus foi uma das duas regiões metropolitanas escolhidas para a pesquisa qualitativa, ao lado de São Paulo. A capital amazonense aparece como estudo de caso sobre desafios estruturais no atendimento às vítimas. Profissionais relataram dificuldades no acesso ao Depoimento Especial, procedimento de oitiva humanizada previsto em lei.
Devido à extensão territorial do Amazonas e à falta de estrutura em municípios do interior, muitas oitivas precisam ocorrer de forma remota. Segundo relatos colhidos, o formato on-line pode comprometer o acolhimento adequado da vítima. A ausência de salas equipadas e de pessoal treinado é apontada como obstáculo.
O Instituto Médico Legal (IML) do Amazonas, localizado em Manaus também foi citado como gargalo. Profissionais descreveram foco excessivo em exames físicos, o que pode dificultar o acesso a cuidados psicológicos em casos de abuso on-line ou sem contato físico. A alta demanda por atendimento psicológico na rede pública é outro desafio.
Conselheiros tutelares relataram sobrecarga na capital. Eles defendem que cada conselho deveria contar com ao menos dez conselheiros, embora atualmente sejam cinco por unidade. A limitação de pessoal compromete o acompanhamento contínuo das violações de direitos.
“A pesquisa revela que as tecnologias não criam necessariamente novas formas de violência, mas ampliam as já existentes”, explicou Marium Saeed, especialista em pesquisa do Unicef Innocenti. Ela destacou a necessidade de ação coordenada entre governo, escolas, famílias e plataformas digitais.
O relatório recomenda fortalecer o Sistema de Garantia de Direitos, padronizar protocolos centrados na criança e atualizar leis diante das tecnologias emergentes. Também propõe ampliar a divulgação de canais de denúncia e integrar educação sobre consentimento e proteção digital no ambiente escolar.
“O investimento foi concebido para transformar pesquisa em ações fundamentadas em evidências”, afirmou Marija Manojlovic, diretora executiva da Safe On-line. Ela declarou que as conclusões oferecem ao País um roteiro prático para fortalecer a resposta nacional à violência sexual facilitada pela tecnologia.
Fonte: AGÊNCIA CENARIUM
