
Redação – O governo federal arrecadou quase R$ 5 bilhões com a tributação de sites de apostas online, as chamadas bets, entre fevereiro de 2025 e fevereiro de 2026, mas destinou apenas 1,17% desse total à saúde. Os dados, obtidos via Lei de Acesso à Informação pela organização Fiquem Sabendo, mostram que cerca de R$ 57 milhões foram direcionados ao Fundo Nacional de Saúde (FNS) para ações de “prevenção, controle e mitigação de danos” relacionados às apostas.
A maior parte dos recursos foi alocada em outras áreas do governo federal, com destaque para recursos livres da União, que receberam R$ 1,05 bilhão, e para os ministérios do Turismo e do Esporte, que concentraram R$ 883 milhões e R$ 875 milhões, respectivamente. A distribuição também contemplou a Seguridade Social, o Fundo Nacional de Segurança Pública, o Ministério da Educação e a Embratur, reforçando o peso de setores não diretamente ligados aos impactos sanitários das apostas.
Prioridade orçamentária distante da saúde
O setor de turismo aparece como principal beneficiário indireto da arrecadação das bets, somando quase R$ 1,2 bilhão quando considerados os repasses ao Ministério do Turismo e à Embratur. Enquanto isso, a parcela destinada à saúde permanece proporcionalmente reduzida, mesmo diante de estimativas que apontam custos sociais significativamente mais altos associados às apostas no país.
Segundo o Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (Ieps), o impacto econômico do setor pode chegar a R$ 39 bilhões ao ano, considerando fatores como mortes por suicídio, perda de produtividade e tratamentos de saúde mental. Dados do Banco Central indicam ainda que brasileiros movimentam mensalmente até R$ 30 bilhões em apostas esportivas, evidenciando a dimensão financeira da atividade.

Saúde fora do centro das decisões
Apesar desses números, o Ministério da Saúde teve participação limitada nas discussões sobre a regulamentação das apostas. Levantamento da Fiquem Sabendo aponta que, entre março e setembro, ocorreram ao menos 209 encontros entre autoridades do Executivo e representantes do setor, mas a pasta esteve presente em apenas dois deles.
As reuniões foram majoritariamente conduzidas pelo Ministério da Fazenda, responsável por 289 das 351 agendas registradas relacionadas aos encontros. Entre os participantes mais frequentes estão integrantes da Secretaria de Prêmios e Apostas, como Regis Anderson Dudena, com 122 reuniões, seguido por Fabio Augusto Macorin e Daniela Olimpio de Oliveira.
A ausência de outros órgãos estratégicos também chama atenção. O Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, mesmo diante de indícios de uso de CPFs vinculados ao Bolsa Família em apostas, não participou de reuniões identificadas. Órgãos como Polícia Federal e Anatel tiveram presença pontual, com apenas um encontro cada.
As informações indicam que, embora a arrecadação com bets tenha alcançado valores bilionários, a destinação de recursos e a condução das discussões sobre o setor ocorreram com participação restrita de áreas diretamente relacionadas aos seus impactos sociais e de saúde.
Fonte: AGÊNCIA CENARIUM
