Pazuello diz que não houve relato de falta de oxigênio no início de janeiro em Manaus

Pazuello diz que não houve relato de falta de oxigênio no início de janeiro em Manaus
Fonte: reprodução.

O ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, afirmou nesta quinta-feira (11) no Senado que gestores locais e relatório da Força Nacional do Sistema Único de Saúde (SUS), de 8 de janeiro, não indicaram falta de oxigênio, mas de “rede” de oxigênio em Manaus no começo deste ano.

Na ocasião, o sistema de saúde de Manaus colapsou, e doentes de Covid-19 morreram por falta de oxigênio.

Pazuello deu as declarações durante sessão no Senado. Ele foi convidado a prestar esclarecimentos sobre vacinação e medidas adotadas contra a Covid-19.

Cobrado por explicações sobre a situação no Amazonas, Pazuello disse que, em nenhum momento, no documento do dia 8 de janeiro, falou-se em “falta de oxigênio”. E fez o seguinte comentário sobre o que é apontado no relatório:

“Rede de gases são os tubos de gases e não o oxigênio que vai dentro. Pressurização entre o município e o estado é regulação entre um e outro”, disse.

O relatório da Força Nacional do Sistema Único de Saúde (SUS) citado pelo ministro traz as seguintes informações: “Foi relatado um colapso dos hospitais e falta da rede de oxigênio. Existe um problema na rede de gás do município que prejudica a pressurização de oxigênio nos hospitais estaduais”.

Também sobre Manaus, o mesmo documento aponta “dificuldade crítica nos respiradores (oxigênio) dos Hospitais da Rede de atendimento Covid-19”.

O senador Eduardo Braga (MDB-AM) criticou a explicação de Pazuello, que, segundo o parlamentar, não é verdadeira.

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“Desculpe-me, esse relatório que falou de rede pressurizada entre município e estado com relação a oxigênio — essa rede não existe, ministro, essa rede não existe. Portanto, não é possível dizer que a falta de oxigênio no Amazonas foi em função de falta de pressão entre redes inexistentes. Isso não é verdade”, protestou Braga.

O senador disse também que, no combate à crise em Manaus, “não foi feito tudo que poderia ser feito”.

“Eu estive com vossa excelência no seu gabinete, em dezembro. E lá, no início de dezembro, eu já dizia a vossa excelência que nós iríamos enfrentar uma onda no Amazonas muito grave. Sugeri, inclusive, que assumisse uma unidade hospitalar no Amazonas diante da comprovação da ineficiência do governo do meu estado quando da primeira onda, que, lamentavelmente, mesmo com recursos, não conseguiu evitar mortes. Eu fui a vossa excelência e disse: ‘É grave’”, relatou o senador do Amazonas.

O ministro da Saúde disse que no dia 7 de janeiro, um dia antes do relatório da Força Nacional do SUS, recebeu um telefonema do secretário estadual de Saúde, em que este pedia ajuda no transporte de cilindros de oxigênio de Belém (PA) para Manaus (AM).

“Transportamos, então, no dia 8, 150 cilindros para Manaus, que começou na tratativa do dia 7 à noite. Até então, senhores, nenhuma ideia sobre colapso de oxigênio, nem para o Estado nem para o ministério”, disse Pazuello.

Segundo o ministro, o secretário de Saúde ligou diretamente no seu telefone particular. Mas Pazuello disse que, até aquele momento, não havia “nenhuma ideia sobre colapso de oxigênio”.

Inquérito

Pazuello é alvo de inquérito que investiga se houve omissão do ministro em relação à crise sanitária no Amazonas. Na semana passada, ele prestou depoimento à Polícia Federal.

O inquérito foi aberto por determinação do ministro Ricardo Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal (STF), que atendeu a um pedido da Procuradoria-Geral da República.

No pedido do inquérito, a PGR argumentou que o Ministério da Saúde recebeu informações sobre um possível colapso do sistema de saúde na capital do Amazonas ainda em dezembro, mas só enviou representantes ao estado em janeiro deste ano.

‘Números inacreditáveis’

O ministro disse que, no segundo semestre de 2020, estava focado na compra de vacinas para realizar o que chamou de “trabalho final” na pandemia, a imunização das pessoas, e permitir o retorno do país à normalidade.

Esse iniciativa, segundo Pazuello, foi “quebrada” com o surgimento de “números inacreditáveis de casos e óbitos” por Covid-19 no mundo.

Em novembro do ano passado, quando houve um aumento de casos no Brasil, Pazuello evitou falar em “segunda onda” da pandemia e classificou a situação, naquela época, como um “repique” de casos.

Críticas de senadores

A postura do governo no enfrentamento da pandemia foi alvo de críticas de vários parlamentares na sessão. Para Simone Tebet (MDB-MS), o governo foi “negacionista”.

“Vossa excelência diz que, nos últimos noventa dias, os números inacreditáveis da segunda onda pegaram todos de surpresa… Como surpresa, ministro? Cientistas, médicos, especialistas, todos nós, noite e dia, convivendo com essa escalada de mortes em todos os estados do Brasil”, protestou.

Fabiano Contarato (Rede-ES) foi mais além: disse que o presidente Jair Bolsonaro e Pazuello terão de responDer a processos por “genocídio”.

“Quase 10 milhões de brasileiros contaminados, 235 mil mortos. Quanto vale a vida humana? Quanto que vale a vida de uma filha, de um filho, de um pai, de um avô? Senhor ministro e presidente da República, as digitais de vocês estão nessas mortes. E eu tenho fé em Deus que tanto o senhor como o presidente da República irão responder por genocídio, seja aqui no Brasil, seja no Tribunal Penal Internacional”, disse o parlamentar do Espírito Santo.

Autor de um pedido de CPI para investigar a atuação do Ministério da Saúde na pandemia, Randolfe Rodrigues (Rede-AP) afirmou que as afirmações de Pazuello “não convencem” e que a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito é “indispensável”. Presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG) tem dito que analisará o pedido de CPI “oportunamente”.

Pazuello não comentou o pedido de CPI que poderia investigá-lo. O militar fez uma metáfora, comparando o enfrentamento à Covid-19 a uma guerra e acrescentou que, se for aberta uma frente de batalha “política”, será mais difícil vencer a guerra.

Apesar de ter sido questionado por parlamentares sobre a recomendação e gastos feitos pelo Ministério da Saúde para uso e distribuição de cloroquina, remédio ineficaz contra a Covid-19, Pazuello não mencionou o medicamento na sessão.

Ao final da audiência, o general do Exército disse apenas que o Ministério da Saúde não faz “protocolo para uso de medicamentos”.

“Nós orientamos por atendimento imediato, ou atendimento precoce. É atendimento. E é o médico que faz o diagnóstico; e ele, sim, prescreve os medicamentos e define o tratamento. Queria deixar isso de forma clara. O Ministério da Saúde não define qual remédio é usado para protocolo de remédio, define o atendimento imediato”, afirmou.

Vacinação ‘acelerada’ em Manaus

Sem especificar a partir de quando, Eduardo Pazuello declarou que a vacinação será ‘acelerada’ em Manaus, em uma articulação entre os ministérios da Saúde e da Defesa. A meta, na capital do Amazonas, segundo o ministro, será vacinar todos acima de 50 anos “na primeira pernada”.

“Já está combinado. Nós vamos vacinar todos acima de 50 anos na primeira pernada, acelerando, sem tirar dos Estados. É apenas acelerar aqui e devolver na segunda pernada. E esse é o desenho que está se desenvolvendo há duas semanas”.

Cobertura em 2021

Também sem dar detalhes, Pazuello disse que irá “vacinar o país em 2021”. Segundo ele, 50% da população “vacinável” receberá imunizante até junho. Outros 50% até dezembro. “Esse é o nosso desafio e é o que nós estamos buscando e vamos fazer”, declarou.

Ele, entretanto, não explicou o que considera “população vacinável”. No Brasil, pessoas com a imunidade baixa e menores de 18 anos não estão sendo vacinados.

O Brasil, assim como outros países, tem enfrentado dificuldade na aquisição de vacinas.

Sobre as tratativas com a Pfizer, o ministro da Saúde afirmou que o imunizante desenvolvido por esse laboratório foi ofertado em poucas quantidades para o Brasil e que foram impostas “cláusulas leoninas”.

“A Pfizer, mesmo que nós aceitássemos todas as condições impostas, a quantidade que nos ofereceram desde o início foi: 500 mil doses em janeiro, 500 mil em fevereiro e 1 milhão em março; 6 milhões no total no primeiro semestre. Senhores, nós não podíamos ficar nisso”, afirmou.

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Fonte: G1.

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