Bruxas: mulheres com conhecimento em Filosofia e Fitoterapia eram queimadas por ‘saberem demais’

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Na imagem, a filósofa grega Hipátia (370-415 d.C) foi torturada até a morte por uma multidão cristã (Reprodução).
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Na imagem, a filósofa grega Hipátia (370-415 d.C) foi torturada até a morte por uma multidão cristã (Reprodução).

Manau/AM – Encantamentos e rituais são práticas lembradas todos os anos no “Dia das Bruxas”, o “Halloween“, celebrado neste domingo, 31 de outubro, uma data que possui mitos criados na Idade Antiga e reforçados no Período Medieval, mas que foram desconstruídos pela História com o passar dos anos. A estrutura patriarcal das duas épocas fez mulheres que “sabiam demais” serem brutalmente assassinadas.

Originada há mais de 2.500 anos, Halloween teve sua primeira cerimônia baseada na cultura celta do Reino Unido, com o chamado “Festival de Samhain”, no qual se acreditava no retorno dos mortos à Terra. Segundo historiadores, o evento foi desfigurado na Idade Média com a discriminações de mulheres que participavam da cerimônia e tinham um alto grau de conhecimento em Filosofia, Astronomia, Fitoterapia e outras áreas de estudos.

Estudo sobre questões gerais e fundamentais da existência humana, a Filosofia busca o conhecimento sobre valores, razão, mente, e linguagem. A Astronomia é uma ciência natural que estuda corpos celestes e fenômenos que se originam fora da atmosfera da Terra, e a Fitoterapia, analisa as funções terapêuticas das plantas e vegetais como potenciais remédios para o tratamento e prevenção de doença.

Em meio ao período em que a Igreja Católica exercia grande influência na Europa e era exercida essencialmente por homens, as mulheres que tinham conhecimentos em práticas de cura com o uso de plantas eram julgadas como “bruxas”, termo que ficou associado a pactos com o “diabo”.

Historicamente, as bruxas também são retratadas como mulheres fora dos “padrões de beleza social”, com o nariz grande, pontudo, cheias de verrugas e corcundas, com uma gargalhada horripilante e que eram temidas por sequestrarem crianças e as usarem em rituais macabros, segundo a religião cristã.

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Historicamente, as bruxas também são retratadas como mulheres com nariz grande, pontudo e cheias de verrugas. (Reprodução)

“Na idade média, entre o século XV e XII, fazia-se a caça às bruxas com a acusação de que elas faziam heresias. Heresias essas que não eram nem mais nem menos do que a expressão dos seus maiores dons. Ao se expressarem, ao usarem as plantas, ao rezarem aos seus Deuses (que não os cristãos), ao manterem uma grande conexão com a natureza (terra, água, sol, lua etc.), ao seguirem a sua intuição e os seus saberes mais íntimos como a premonição ou apenas aquelas que eram mais cultas, belas ou inteligentes. Eram queimadas, afogadas ou enterradas para que se calassem e não se expressassem como mulheres que eram”, explica a portuguesa e celebrante espiritual Cátia Silva, especialista em rituais.

Em entrevista à REVISTA CENARIUM, Cátia Silva lembra que, no princípio, os celtas acreditavam no fato de que, entre a noite do dia 31 de outubro e o dia 1º de novembro, o véu entre mortos e os vivos era mais frágil, sendo mais fácil a comunicação com os ancestrais. Segundo a celebrante espiritual, esse momento, para a cultura céltica, era uma grande festa, com rituais envolvendo fogueiras, a vela e ao fogo, e que traziam um misticismo próprio. Ao longo do tempo, o cristianismo adotou algumas dessas cerimônias pagãs e houve uma apropriação do Festival do Samhain.

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Especialista em experiências e rituais, Cátia Silva explica a cultura que deu origem ao Dia das Bruxas (Crédito da foto: Monica Lages)

“O que aconteceu foi uma apropriação do dia do Samhain, uma celebração do fim das colheitas, e fim do verão, onde as pessoas aproveitavam e começavam a se preparar para o inverno. E esta passagem era quase como um ‘portal’ para eles. O cristianismo, como quis se adotar dessa postura, pôs o Dia de Todos os Santos, que era em 13 de maio, para o dia 1º de novembro, para não haver uma transformação tão grande de um ritual para outro, de uma cultura para outra, do paganismo para o cristianismo”, detalhou Cátia.

Transição
A professora de História, Kátia Regina Damasceno, explicou que com a transição, os europeus que imigraram para os Estados Unidos (EUA) levaram consigo os rituais para os americanos. Nos EUA, parte dos costumes mudaram: as abóboras, legume mais comum encontrado na América do Norte, passaram a ser utilizadas no lugar de nabos (usados na Irlanda) para afastar os maus espíritos.

Nos anos de 1693 e 1694, a cidade de Salem, nos Estados Unidos, chamou a atenção do mundo pela série de julgamentos de dezenas de pessoas, entre bruxas e habitantes locais, executados e torturados, em praça pública, por praticarem bruxaria. Com o grande número de execuções, o medo também dominava a região e, consequentemente, as lendas e contos sobre as bruxas e o que elas eram capazes de fazer tomaram o imaginário popular.

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Imagem ilustrativa sobre as mulheres acusadas de bruxaria na Idade Média (Crédito: Divulgação/Youtube)

“O que aconteceu com essas mulheres, na Idade Média, foi que elas foram queimadas, não por terem algum saber extra-sensorial (muitas delas até tinham), mas a questão que quero defender é que nós, as mulheres, fomos habituadas a calar toda a nossa sabedoria interna para que não sofrêssemos consequências, da nossa família ou de nós próprias”, reforçou Cátia Silva.

Conforme o historiador britânico Malcolm Gaskill, professor da Universidade de East Anglia, “as mulheres atraíam muita desconfiança da Igreja e quando elas se mostravam habilidosas para lidar com a vida, seja preparando medicamentos ou atuando como parteiras, os bispos iam à loucura”.

“Depois de várias semanas de tortura, as mulheres confessavam práticas indescritíveis, como beijar ânus de gatos, beber sangue humano ou sacrificar crianças recém-nascidas”, descreve o historiador à revista Super Abril.

Injustiçadas
Diante do sentido pejorativo da palavra bruxa, criou-se, na sociedade, uma cultura machista e misógina na qual as mulheres passaram a ser desqualificadas pelos homens por se submeterem ao desconhecido e às “forças do mal”. Com isso, as mulheres sucumbiram a papéis secundários e submissos aos maridos. Mais de 3.800 pessoas foram julgadas por bruxaria na Escócia entre os séculos XV e XVIII e não houve desculpas formais pelos eventos hediondos.

Atualmente, a advogada Claire Mitchell lidera um movimento que luta por reparação histórica para 2.500 mulheres mortas por serem bruxas. Para isso, ela deu início à campanha Bruxas da Escócia. A advogada explicou que “a campanha tem três objetivos: o perdão aos condenados, o pedido de desculpas aos arguidos e um monumento nacional para os lembrar.”

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Ilustração de uma mulher sendo queimada na fogueira (Divulgação)

Mitchell afirma que 84% das queixas de bruxaria na Escócia foram feitas contra mulheres. “As pessoas acreditavam que elas eram mais fracas e, portanto, mais propensas a cair no feitiço do diabo”, concluiu a especialista.

Para ela, é “muito importante” reconhecer esta grave injustiça e, por isso, levou um pedido, em 17 de março de 2021, à Comissão de Justiça do Parlamento Escocês para que o País peça desculpas e faça um memorial para as vítimas condenadas sob a Lei de Bruxaria da Escócia, que entrou em vigor em 1563 e permaneceu vigente até 1736. O documento está sendo analisado, segundo o tabloide do País The National.

Na lista de pessoas executadas por acusação de bruxaria, no período de “Caça às Bruxas”, estão a filósofa neoplatônica grega Hipátia (370-415 d.C), atacada e torturada até a morte por uma multidão cristã; o general chinês Zhang Liang (morto em 646), decapitado após ser acusado de feitiçaria; e a francesa Angèle de la Barthe, (1230-1275 d.C) queimada viva após ser acusada de ter mantido relações sexuais com o diabo e ter dado à luz a um bebê “monstro”.

Empoderamento
Como forma de empoderamento, dar voz e trazer a bruxa que há nas mulheres, a celebrante espiritual Cátia Silva trabalha em celebrações e rituais há um ano e meio em Lisboa, em Portugal.

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Cátia Silva é celebrante espiritual e trabalha com o empoderamento feminino (Crédito da Foto: Ana Freitas)

“Esse saber interno, essa sabedoria e conhecimento é meu por direito e eu tenho direito de colocar para fora para ajudar os outros, empoderar outras mulheres que se calam, mulheres que sofrem na sociedade com o racismo, qualquer tipo de discriminação. E este trabalho que estou a fazer com mulheres (círculos e rituais), é para trazer a cura, a luz, estas memórias para nos curarmos uma as outras. Quando eu me curo, estou curando outra, porque estou passando minha história e minha mensagem. E quando ela se encontra em mim, ela vai tentar fazer o processo por ela própria”, salientou Cátia.

Para Cátia, esse movimento representa a vontade de todas as mulheres de se libertarem de amarras, da opressão de suas expressões e dons. “Nos mostrar sem vergonha e assumindo o que realmente temos aqui dentro, a nossa sabedoria interna e o nosso poder pessoal. O feminismo e esta conexão à bruxa interior é sabermos o real sentido do ser humano: somos todos iguais – feitos de carne e osso, com o sangue vermelho e um coração do lado esquerdo do corpo. Neste sentido, é necessário que cada vez mais mulheres assumam essa bruxa interior para serem livres de serem quem são, sem julgamentos nem fogueiras, porque estamos em pleno século XXI e a palavra de ordem é liberdade”, concluiu.

Para conhecer mais sobre o trabalho de Cátia Silva, que busca celebrar a vida por meio de rituais de uma forma intencional, amorosa e alegre em que todos possam ser livres, aceitos e felizes, basta acessar o site da especialista no link: https://www.catiasilva.eu/ ou acesse as redes sociais.

Com informações da Agência Cenarium

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