Falhas na cadeia da carne facilitam venda de gado de áreas desmatadas

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Foto: Gilvan Alves/TV Brasil

Redação – As principais plantas frigoríficas da Amazônia Legal habilitadas a exportar carne bovina para a China operam com falhas estruturais na rastreabilidade, especialmente no controle de fornecedores indiretos, o que amplia o risco de “lavagem de gado” – prática associada ao desmatamento ilegal. A constatação é do relatório técnico do Radar Verde, divulgado em 2025, que analisou a aderência dessas empresas às regras de comércio verde da Associação Chinesa de Carnes (CMA).

De acordo com o levantamento, nenhuma das unidades avaliadas apresentou evidências de monitoramento efetivo de toda a cadeia produtiva até a origem. “Nenhuma empresa apresentou evidências de mecanismos efetivos para controlar as fazendas fornecedoras indiretas”, aponta o estudo, destacando o principal gargalo no cumprimento das exigências internacionais de desmatamento zero.

A análise abrangeu 151 empresas com 194 plantas frigoríficas distribuídas pela Amazônia Legal, incluindo Estados como Pará, Mato Grosso, Rondônia, Amazonas e Acre, regiões que concentram a maior parte da produção bovina do País. Essas unidades foram responsáveis por cerca de 96% dos abates em 2024, apontando o peso do problema dentro da cadeia produtiva nacional.

Rastreabilidade incompleta expõe cadeia ao desmatamento
Entre as 31 plantas frigoríficas autorizadas a exportar diretamente para a China, 68% apresentam baixo nível de controle socioambiental e 32% nível muito baixo. Apenas 20 unidades demonstraram algum tipo de monitoramento sobre fornecedores diretos – fazendas que vendem diretamente aos frigoríficos – enquanto nenhuma comprovou controle sobre fornecedores indiretos, responsáveis pelas fases iniciais da criação do gado.

Essa lacuna é considerada central para entender o risco de lavagem de gado, já que permite que animais criados em áreas desmatadas ilegalmente em municípios como São Félix do Xingu (PA), Altamira (PA), Porto Velho (RO) e Lábrea (AM) sejam transferidos para propriedades regularizadas antes do abate. O relatório destaca que essas regiões estão entre as mais expostas ao avanço do desmatamento na Amazônia.

Foto: Fred Santana/CENARIUM

No caso das 71 plantas habilitadas a exportar para Hong Kong, muitas das quais abastecem indiretamente o mercado chinês, o cenário repete o padrão. Cerca de 61% apresentam políticas com baixo nível de controle socioambiental, e 55% monitoram apenas fornecedores diretos, mantendo a cadeia vulnerável a irregularidades.

Concentração de mercado e pressão internacional
As unidades habilitadas para exportação à China e Hong Kong têm capacidade conjunta de abater 48.540 cabeças de gado por dia, o equivalente a 57% de toda a capacidade da Amazônia Legal. Isso inclui plantas localizadas em polos estratégicos da pecuária, como Marabá (PA), Redenção (PA), Sinop (MT), Ji-Paraná (RO) e Rio Branco (AC), onde a expansão da atividade pecuária se sobrepõe a áreas de floresta.

Apesar da relevância econômica e da exposição ao risco ambiental – com áreas de influência que variam de 31 mil a 3,8 milhões de hectares sob pressão de desmatamento – apenas uma empresa, a Plena Alimentos, respondeu ao questionário do Radar Verde. “Esse silêncio compromete a transparência exigida pelas normas da CMA”, registra o relatório.

As diretrizes da associação chinesa exigem rastreabilidade completa até a fazenda de origem, limite máximo de 0,5 hectare de conversão de vegetação nativa e definição de uma data de corte para impedir novos desmatamentos na cadeia produtiva. Também determinam que empresas divulguem publicamente seus compromissos e evidências de conformidade.

O contexto se torna ainda mais sensível diante das mudanças no comércio bilateral. Desde janeiro de 2026, a China passou a adotar um sistema de cotas tarifárias, limitando as importações brasileiras a 1,106 milhão de toneladas por ano, com sobretaxa de 55% para volumes excedentes. A medida tende a elevar a exigência por fornecedores com maior controle socioambiental e transparência.

O relatório indica que importadores chineses podem utilizar o Radar Verde como critério de seleção, priorizando frigoríficos com evidências verificáveis de rastreabilidade e controle do desmatamento. Também aponta que investidores devem considerar esses indicadores como parte de análises de risco, especialmente diante da crescente pressão internacional por cadeias produtivas livres de desmatamento.

Fonte: AGÊNCIA CENARIUM

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