
Redação – A polêmica rodovia BR-319, que conecta Manaus (AM) a Porto Velho (RO), entrou em uma nova fase de projeções financeiras robustas. De acordo com a atualização do Plano Plurianual (PPA) 2024-2027, publicada no Diário Oficial da União nesta quinta-feira, 14, o Governo Federal estima que o valor final para a adequação e pavimentação da estrada chegará à marca de R$ 2.045.094.560,00.
O planejamento marca o que pode ser o desfecho de um imbróglio que se arrasta há mais de duas décadas, com a data de conclusão agora fixada para o final de 2028.
A Escala dos Investimentos (2024-2027)
Os aportes financeiros para a rodovia seguem uma curva de crescimento acentuada, sinalizando uma prioridade política crescente para o “Trecho do Meio”:
| Ano | Previsão de Investimento |
| 2024 | R$ 9,7 milhões |
| 2025 | R$ 81,8 milhões |
| 2026 | R$ 53,9 milhões |
| 2027 | R$ 200 milhões |
Nota: O salto em 2027 sugere o início das obras de infraestrutura pesada e pavimentação definitiva, superando as etapas iniciais de manutenção.
O Contraste: A Inviabilidade em Números
Apesar do otimismo governamental, o projeto enfrenta críticas severas baseadas em estudos de custo-benefício. Um levantamento técnico da organização Conservação Estratégica (CSF) projeta um cenário econômico preocupante:
- Retorno Social Negativo: O estudo calculou uma relação de apenas R$ 0,33 de benefício para cada R$ 1,00 investido. Na prática, isso significa que a obra consome mais riqueza pública do que gera retorno para a sociedade.
- Déficit Bilionário: Ao somar os custos de transporte e os danos ambientais (externalidades), o prejuízo líquido estimado saltaria para R$ 2,2 bilhões.
- Logística Ineficiente: Para o escoamento da Zona Franca de Manaus, o frete rodoviário pela BR-319 seria 66% mais caro do que o transporte por cabotagem (rios), que é o modal natural da região.
Impactos Ambientais e o “Custo Carbono”
A conta da BR-319 não é apenas financeira, mas ecológica. O avanço do desmatamento e as consequentes emissões de carbono foram precificados em R$ 1,4 bilhão — um valor que, sozinho, quase anula qualquer ganho logístico direto. Além disso, estima-se que seriam necessários R$ 469 milhões apenas para a implementação e fiscalização das 29 Unidades de Conservação que protegem as margens da estrada.
Contexto Histórico e Próximos Passos
A trajetória da rodovia é marcada por interrupções e fragilidades institucionais:
- 2003: Registro inicial do projeto.
- 2007: Paralisação das obras por denúncias de irregularidades e transferência de trechos para o Exército Brasileiro (BEC).
- Atualidade: Inclusão no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) sem estudos de viabilidade econômica plenamente consolidados, segundo críticos.
Mesmo sob pressão de órgãos ambientais e evidências de desequilíbrio financeiro, o Ministério dos Transportes mantém a meta de elevar o Índice de Condição da Manutenção (ICM) das rodovias do Norte para 70% até 2027, mantendo a BR-319 como o eixo central dessa estratégia de integração regional.
Fonte: AGÊNCIA CENARIUM
