Bastidores da Identidade: Como o Apoio Estrutural Transforma o Sentimento Comunitário nas ‘Ruas da Copa’ em Manaus

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Foto: Carlos Oliveira / Assessoria Prefeito

Redação – A relação entre o futebol, o desenho urbano e a organização social em Manaus ultrapassa a mera paixão esportiva; ela se consolidou como um fenômeno de patrimônio cultural imaterial e microeconomia urbana. Na manhã desta segunda-feira, 8 de junho de 2026, uma comitiva liderada pelo prefeito Renato Junior e técnicos da Fundação Municipal de Cultura, Turismo e Eventos (ManausCult) percorreu os bairros Morro da Liberdade, Alvorada, Centro e Praça 14 de Janeiro. O objetivo foi inspecionar as vias contempladas pelo edital de fomento às “Ruas da Copa”, uma política pública estruturada para profissionalizar o suporte logístico a manifestações espontâneas que, historicamente, dependiam exclusivamente do esforço voluntário dos moradores.

Para além do aspecto festivo, a visita técnica expõe a complexidade por trás da montagem desses espaços, que operam temporariamente como arenas culturais descentralizadas, gerando impactos diretos na segurança pública, no comércio de bairro e na preservação da memória coletiva de Manaus.


Logística Urbana e Fomento Público: O Mecanismo do Edital nº 001/2026

O suporte oferecido pelo Executivo municipal não se baseia em repasses financeiros diretos, mas sim na descentralização de infraestrutura técnica por meio do Edital de Chamada Pública nº 001/2026, elaborado pela ManausCult. Essa modelagem jurídica e logística visa mitigar os custos operacionais que antes inviabilizavam a permanência das decorações ao longo de todo o torneio mundial.

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│              INCENTIVOS E CONTRAPARTIDAS DO EDITAL              │
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│ Estrutura Cedida pela Prefeitura │ Contrapartidas da Comunidade │
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│ • Telões de LED de alta definição│ • Mutirões de ornamentação   │
│ • Sistemas de sonorização e palco│ • Cronograma de coleta seletiva│
│ • Iluminação cênica em LED       │ • Ações sociais de bairro    │
│ • Disposição de banheiros químicos│ • Histórico de edições (memória)│
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Ao formalizar as diretrizes de ocupação por meio do Diário Oficial do Município (DOM, edição nº 6.319), a administração pública passou a exigir critérios técnicos que elevam o padrão das exibições. De acordo com Márcio Braz, diretor-presidente da ManausCult, a intervenção institucional cumpre um papel de ordenamento:

“O futebol atua como um catalisador da identidade coletiva do amazonense. O papel da gestão pública é garantir que essa manifestação ocorra de forma segura, higiênica e tecnicamente viável, fornecendo a base física — som, luz e segurança — para que o protagonismo continue sendo estritamente dos moradores.”


A Economia de Proximidade: O Impacto no Comércio Local

Um dos reflexos mais imediatos da consolidação das “Ruas da Copa” é a ativação da economia de proximidade (ou microeconomia de bairro). Ruas ornamentadas atraem um fluxo constante de visitantes locais e turistas, transformando vias residenciais em polos temporários de comércio e serviços.

No bairro Praça 14 de Janeiro, na tradicional rua Santa Isabel, o impacto já se faz notar antes mesmo da abertura oficial do campeonato. O empreendedor Edimar Almeida, de 52 anos, proprietário de um estabelecimento comercial na via, relata que o adensamento de pessoas alterou a dinâmica financeira da região:

  • Aumento na circulação: A presença de moradores de outras zonas da cidade para fotografar a ornamentação eleva o ticket médio dos comércios locais.
  • Empregabilidade informal: Setores de alimentação rápida, venda de bebidas e artesanato encontram nessas vias uma janela de faturamento concentrado.
  • Sustentabilidade do negócio: O suporte estrutural da prefeitura desonera os comerciantes locais, que antes precisavam cotizar o aluguel de equipamentos de som e telões.

“A movimentação do bar já registrou uma curva ascendente significativa com a finalização dos enfeites. O investimento público em infraestrutura nos dá a estabilidade necessária para estocar mercadorias e planejar o atendimento para os dias de jogos, sabendo que a estrutura principal está assegurada”, pontua Almeida.


Etnografia Urbana: União Comunitária e Memória no Alvorada e no Centro

A estética das ruas decoradas de Manaus é reconhecida nacionalmente pela complexidade técnica de suas malhas de fitas suspensas e pelos imensos painéis pintados no asfalto. Essa produção artística exige um nível sofisticado de divisão de trabalho e engajamento comunitário.

                     FLUXO DE PRODUÇÃO COMUNITÁRIA
                     
  [ Planejamento Visual ] ──> [ Arrecadação de Insumos ]
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  [ Inauguração Oficial ] <── [ Mutirão de Pintura/Fitas ]
Foto: Carlos Oliveira / Assessoria Prefeito

Na rua 3, no bairro Alvorada 1 — núcleo histórico dessa tradição —, o processo de pintura e amarração de fitas mobiliza diferentes gerações. O artista plástico Sérgio Silva, 40, coordena o planejamento cromático e os acabamentos das imagens desenhadas na via, cuja inauguração está prevista para o dia 10 de junho. “Não é um trabalho individual. É uma engenharia comunitária onde um contribui com a técnica, outro com os insumos, e outros garantem a logística de alimentação e hidratação de quem passa a madrugada trabalhando”, explica Silva.

Esse ambiente de cooperação intergeracional é endossado por residentes históricos como a dona de casa Elizete Farias, 78 anos, moradora do bairro há cinco décadas. Ela enfatiza que o período da Copa do Mundo funciona como uma trégua urbana: “O bairro se mobiliza em torno de um objetivo comum. Desaparecem os atritos cotidianos e resta apenas o esforço coletivo para que a nossa rua seja a mais acolhedora. É um momento de coesão social pacífica.”

No Centro da cidade, na avenida Leonardo Malcher, a liderança comunitária Semone Santos gerencia o cronograma de entrega da ornamentação. Durante a inspeção técnica, o Executivo municipal confirmou a inclusão de suporte artístico complementar para a abertura do espaço. Para Semone, o reconhecimento institucional valida a preservação da identidade local: “O aparato técnico cedido eleva o status da nossa rua a patrimônio cultural do bairro, fortalecendo os laços das famílias que aqui residem.”


O Desafio da Gestão Pública: Segurança, Ordem e Pós-Evento

O principal desafio na gestão de eventos de grande porte em vias públicas residenciais reside no equilíbrio entre a celebração e a manutenção da ordem urbana no período pós-jogo. A concentração de milhares de pessoas exige um protocolo rigoroso de segurança integrada.

Durante a vistoria na rua 24 de Agosto, no bairro Morro da Liberdade — cuja tradição de ornamentação remonta ao ano de 2002 —, a prefeitura detalhou o plano de contingência que será executado pela Guarda Municipal de Manaus (GMM), em articulação com as forças de segurança do Estado.

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│               DIRETRIZES DE SEGURANÇA E ORDENAMENTO             │
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│ Foco da Atuação da GMM       │ Objetivos de Impacto Urbano      │
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│ • Controle de dispersão      │ • Coibir "paredões de som"       │
│ • Patrulhamento preventivo   │ • Garantir o direito ao sossego  │
│ • Apoio à fiscalização de vias│ • Manter o tráfego fluído        │
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Ernane Monteiro, 56, um dos organizadores históricos do Morro da Liberdade, ressalta que o suporte na segurança é tão vital quanto os telões de LED:

“Nossa principal demanda junto ao município foi o ordenamento do pós-evento. A festa é legítima durante os 90 minutos de jogo e nas horas subsequentes, mas precisamos garantir o direito ao sossego dos moradores que trabalham no dia seguinte. A presença fiscalizadora da Guarda Municipal evita os excessos de poluição sonora fora de hora e mantém o ambiente estritamente familiar.”

O cantor Rosemberg Matos, 42, ligado à escola de samba Reino Unido da Liberdade, reforça que a complexidade logística atual impede que o evento seja gerido de forma amadora. “O suporte público profissionaliza a festa. Limpeza, iluminação reforçada e banheiros adequados transformam o que seria uma aglomeração espontânea em um evento cultural estruturado e seguro.”

Distribuição Geográfica do Fomento

Ao todo, 11 vias foram consideradas aptas pelos critérios técnicos do edital — que avaliou itens como criatividade, histórico de participação e a inclusão de propostas de sustentabilidade ambiental (como a destinação correta de resíduos plásticos).

A distribuição abrange todas as zonas geográficas de Manaus, garantindo que o acesso à infraestrutura não fique centralizado nos eixos turísticos tradicionais:

  • Zona Sul / Centro: Rua Inocêncio de Araújo (Educandos), Rua Benjamin Silva (Aparecida), Avenida Leonardo Malcher (Centro) e Rua 24 de Agosto (Morro da Liberdade).
  • Zona Leste: Rua Aratuba (Conjunto Castanheiras/Gilberto Mestrinho) e Rua Capitão Francisco Falcão (São José Operário).
  • Zona Norte: Rua Camocim (Núcleo 9/Cidade Nova) e Rua Itaúba Preta (Viver Melhor 2).
  • Zona Oeste: Rua 3 (Alvorada 1), Rua Santa Isabel (Vila da Prata) e Rua Santa Isabel (Praça 14 de Janeiro).

O acompanhamento dessas estruturas seguirá um cronograma rígido durante todo o período do torneio, com vistorias periódicas dos órgãos de fiscalização urbana e ambiental da capital amazonense.

Foto: Carlos Oliveira / Assessoria Prefeito

Fonte: Prefeitura de Manaus

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