Medo, restrições, duas ondas e colapso: um ano de pandemia do coronavírus no Amazonas

Medo, restrições, duas ondas e colapso: um ano de pandemia do coronavírus no Amazonas
Amazonas viveu cenas de caos na Saúde e colapso até nos cemitérios por conta de surtos da Covid-19. — Foto: SANDRO PEREIRA/FOTOARENA/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDO

Há um ano, o Amazonas registrava o primeiro caso confirmado do novo coronavírus. Desde 13 de março de 2020, o estado luta contra o vírus que, infelizmente, causou a perda de mais de 11,2 mil vidas. O medo de contaminação, as restrições no dia a dia e o colapso na Saúde marcaram esse último ano.

Com o avanço do contágio, ainda em março do ano passado, os moradores do Amazonas também tiveram que adotar o isolamento social, uso constante de álcool em gel e máscaras, e o fechamento total do comércio não essencial em diversos períodos.

Na primeira onda, entre abril e maio, o estado foi um dos primeiros do País a entrar em colapso na Saúde por conta do aumento de internações e falta de leitos nos hospitais. Na segunda onda, entre janeiro e fevereiro deste ano, o cenário foi ainda mais agressivo: faltou oxigênio nos hospitais, pacientes foram levados a outros estados e houve recordes de mortes.

Até esta sexta-feira (12), o Amazonas possui mais de 330 mil casos confirmados do novo coronavírus, com mais de 11 mortes pela doença. Mais de 434 pessoas já foram vacinadas contra a Covid-19.

Resumo

  • Amazonas confirmou primeiro caso do novo coronavírus em 13 de março de 2020, o primeiro na Região Norte. Governo fechou comércio e decretou estado de calamidade pública;
  • Profissionais da saúde se tornaram heróis, mas denunciaram sobrecarga de trabalho e falta de equipamentos de proteção, além de outros problemas para assistência a doentes;
  • Rede pública de saúde entrou em colapso duas vezes por conta de surtos da Covid: entre abril e maio do ano passado, e entre janeiro e fevereiro deste ano;
  • Milhares de infectados viveram o medo de enfrentar a doença, e lembram da alegria em se recuperar da Covid;
  • Comércio ficou fechado por cerca de quatro meses, durante colapso na Saúde, e trabalhadores questionavam: “morrer de fome ou morrer de Covid?”;
  • Vacinação contra Covid começou com sinais de esperança, mas supostas fraudes interromperam campanha e geraram revolta na população;
  • Corrupção na pandemia: operação Sangria, da Polícia Federal, revelou esquema ilegal para desviar dinheiro público usado para compra de respiradores.

Os profissionais que acompanharam de perto todo o caos, desde o início da pandemia, chegaram a comparar como se o Estado estivesse vivendo em um ‘cenário de guerra’. Foi com essas palavras que o coordenador médico do Hospital e Pronto-Socorro Delphina Aziz, Kenit Minori, definiu esse primeiro ano da pandemia.

Ele atua na linha de frente no combate ao vírus desde o registro do primeiro caso. Enquanto trabalhava, o médico presenciou o sistema de saúde colapsar, viu colegas adoecerem com a doença, acompanhou a sobrecarga física e emocional da equipe, o desespero dos pacientes e o choro de familiares de vítimas fatais da Covid-19. Para ele, são tristes cenas que nunca vão se apagar da memória.

“O começo foi mais um temor de que algo grande estava vindo pela frente. Mas nem no pior pesadelo se imaginaria que seria desta proporção. São conflitos diários, físicos e mentais’.

Médico Kenit Minori atua na linha de frente ao novo coronavírus desde início da pandemia. — Foto: Arquivo Pessoal

Kenit acompanhou, inclusive, a crise do oxigênio nos hospitais de Manaus, em janeiro deste ano. As unidades de saúde ficaram sem o insumo, essencial no tratamento de casos graves de Covid-19. Familiares de pacientes que precisavam do produto, buscavam desesperadamente cilindros de oxigênios, enquanto médicos transportavam cilindros nos próprios carros para levar aos hospitais.

“Respirar é algo tão básico, tão natural, que a gente não valoriza o quão isso é importante. Ver alguém tentar puxar o ar e não conseguir, é muito triste. Agonizante tanto pra quem não consegue, quanto para quem deveria poder ajudar e também está limitado pela situação”, lembrou.

Nos corredores dos hospitais, rostos e histórias se encontraram. Quem é infectado pela Covid, não sabe ao certo como vão ser os próximos dias. Muitos nem conseguem mais manter um contato com a própria família, pois o risco de contaminação gerou a suspensão dos acompanhantes nos hospitais.

Cantor Jander Manauara ficou dois meses internado com Covid-19. No hospital, contou que fez alguns amigos. — Foto: Arquivo Pessoal

O cantor Jander Manauara foi acometido pela Covid-19 em maio do ano passado. O que ele não sabia é que também tinha um tumor na parte abdominal, e nem que era diabético. Essas duas circunstâncias agravaram o quadro de saúde de Jander, que passou dois meses internado.

O hospital acabou se tornando sua segunda casa. Agora, recuperado, ele lembra dos momentos que passou.

“No quarto onde eu estava, das pessoas que deram entrada junto comigo, eram 12, e desses 12 morreram 5. Eu só pensava em sair daquela situação. Pensava em tudo que eu tinha pra fazer e me perguntava se eu ainda teria tempo de realizar”, comentou.

Mesmo após ter recebido alta médica do hospital e ser considerado um paciente recuperado da Covid-19, Jander contou que ainda sofre com as sequelas da doença. Sete meses depois, ele diz que ainda não se sente recuperado completamente.

Cantor Jander Manaura disse que sofre com sequelas da Covid-19 meses após contaminação. — Foto: Arquivo Pessoal

“Só agora voltei a produzir algo, ter uma normalidade de produção e construção artística. A gente fica lerdo. Não cantei mais, por muito tempo após receber alta do hospital. Tenho dificuldades na fala, e me falta equilíbrio mental agora, a criatividade fica afetada. Esqueço as palavras”, disse.

O artista se prepara para voltar aos palcos em breve. Mas, por enquanto, como forma de agradecer ao universo por ter vencido a doença, Jander faz parte de redes solidárias para ajudar pacientes com Covid-19, distribuindo alimentos às famílias carentes, com pacientes internados nos hospitais.

A servidora da guarda municipal, Kelly Christina Natário Diniz, de 43 anos, também foi hospitalizada durante a primeira onda da Covid-19. Ela deu entrada no hospital no dia 21 de abril, e recebeu alta em 7 de maio.

Kelly Christina Natário Diniz, de 43 anos, e o filho, de 11 meses, ficaram afastados por conta da Covid-19. — Foto: Arquivo Pessoal

Para ela, foi o momento mais difícil de toda a vida, principalmente por ter que ficar longe do filho, que na época, tinha apenas 11 meses de idade e ainda estava em fase de amamentação.

“Fui para uma consulta e achei que logo voltaria para casa, mas 50% dos meus pulmões estavam comprometidos, fiquei internada. Minha filha foi quem assumiu o papel de mãe do meu bebê. No meio da internação, achei que não ia sobreviver”, comentou.

Segunda onda ou Tsunami?

Durante os meses de abril e maio do ano passado, Manaus viveu a primeira onda do novo coronavírus. O período foi marcado por superlotação de hospitais. Não havia leitos para todos, muitas pessoas morriam em casa, sem atendimento médico, resultando também nos cemitérios lotados.

O comércio não essencial estava fechado como forma de evitar a propagação do vírus. No entanto, dois meses depois, em junho, o Governo decidiu flexibilizar as medidas restritivas, abrindo o comércio não essencial.

Especialistas chegaram a criticar a decisão, e a alertar sobre uma possível segunda onda da doença, por conta do relaxamento nas medidas. O Governo continuou se baseando na queda no número de casos para flexibilizar ainda mais as restrições.

No fim do ano, quando praticamente todas as atividades comerciais e de lazer já estavam em pleno funcionamento, o número de pessoas infectadas aumentou consideravelmente, e assim o Amazonas passou a enfrentar a segunda onda da Covid.

A médica Fabiane Sales de Almeida, que durante toda a pandemia trabalhou em cerca de dez hospitais diferentes, revezando plantões, disse que o segundo pico do novo coronavírus no Estado ficou conhecido entre os colegas de profissão como um ‘tsunami’.

“Comentamos que não era uma segunda onda, e sim um “tsunami”, devastador. Tiveram vários acontecimentos marcantes, mas o da falta de oxigênio foi o mais impactante. É um trauma para o resto da vida”, destacou.

Durante a segunda onda, o Amazonas descobriu a presença de uma nova variante do coronavírus, chamada de P1. Cientistas confirmaram que a variante tem um potencial maior de transmissão e pode estar relacionada com o novo surto da doença.

‘Morrer de fome ou morrer de Covid?’

Movimentação de consumidores no centro de Manaus (AM), após retomada parcial do comércio, neste sábado, 27 de fevereiro de 2021. — Foto: Aguilar Abecassis/Photopress/Estadão Conteúdo

Se por um lado, pessoas estavam morrendo nos hospitais, do outro lado, havia também a economia pedindo socorro, segundo empresários e especialistas da área consultados pelo G1. Ainda no início da pandemia, empresas fecharam as portas, houve demissões em massa, além da paralisação total das atividades não essenciais no Estado.

Diante de um cenário nunca visto antes, o impacto não poderia ser diferente, e resultou em queda na arrecadação do Amazonas. Grandes empresas foram afetadas, mas o pequeno empreendedor foi um dos que mais sofreu com o impacto.

Mediante às medidas restritivas e a suspensão das atividades não-essenciais em Manaus, comerciantes que não foram contemplados em programas de auxílio precisam se arriscar, e continuavam abrindo suas lojas para sobreviver.

Para o economista Rogério dos Anjos, a economia é essencial à vida, no entanto, a pandemia trouxe um novo formato das relações de trabalho, uma nova ordem, que fortalece as relações digitais, e deve se consolidar cada vez mais, com compras digitais, serviços de entrega, pagamentos digitais, serviços remotos, home office, entre outros.

“Ficar em casa, por um lado significava minimizar o risco de contaminação, por outro, gerava um sentimento de impotência para aqueles que precisam sair todos os dias de suas casas em busca do sustento de sua família. Para superar economicamente os efeitos da crise, devemos pensar que as pessoas produzam para manter a atividade econômica em funcionamento, mas isso só é possível dentro desse novo contexto de relações”, comentou.

Semanas antes do colapso da segunda onda de Covid, trabalhadores e comerciantes realizaram diversas manifestações por Manaus contra o fechamento do comércio na véspera do fim de ano. O governador Wilson Lima decidiu fechar tudo por 15 dias a partir de 26 de dezembro, mas voltou atrás após a pressão popular. O comércio fechou dia 2 de janeiro.

Colapso poderia ter sido evitado

AstraZeneca alega estar enfrentando problemas de produção de sua vacina. — Foto: AP Photo/Alessandra Tarantino

A vacinação contra Covid no Amazonas teve início no dia 18 de janeiro deste ano, em meio ao colapso na Saúde. Nesta semana, o estado ultrapassou a marca de 300 mil vacinados, com cerca de 7,3% da população imunizada.

Na análise do infectologista da Fundação de Medicina Tropical Doutor Heitor Vieira Dourado FMT-HVD, doutor Marcus Guerra, o alto índice de contaminação poderia ter sido evitado com a simples adoção de medidas mais rígidas, além da suspensão de eventos como as eleições de 2020, e as celebrações de fim de ano.

“Esse processo seguramente permitiu a circulação do vírus em todo, pois se vê claramente o deslocamento do vírus de zonas e bairros ao longo do tempo. Também o governo foi brando em admitir grandes feriados em novembro e dezembro ainda com áreas de lazer liberadas, e com muitas festas familiares comemoradas”, explicou o infectologista.

O Poder Público tem seu papel em meio à pandemia, mas, a população também é um agente deste cenário. Usar máscara, ficar em casa, mudar a rotina em meio ao caos: são atitudes que cada um pode fazer, e ajudar a reduzir os impactos. No entanto, sempre houve, desde o início da pandemia, uma parcela da população desrespeitando as normas.

Durante todo o primeiro ano foi comum ver aglomerações, festas, uso incorreto de máscara, entre outras coisas, que contribuíram para a disseminação mais rápida do vírus no Estado.

Analisando o comportamento da população, a psicóloga Luanna Cunha esclareceu ao G1 o que possivelmente leva as pessoas a esse comportamento, fora do recomendado. Para ela, a pandemia dividiu a sociedade em dois grupos.

“De um lado estão os que temem e buscam orientação. De outro, os que negam a existência real de um problema. Enquanto uns fogem (negar) outros enfrentam. Cada pessoa vai reagir a ameaça de forma diferente e uma dessas formas é negar a existência da ameaça/emoções como se, simbolicamente, ela fosse deixar de existir”, explicou.

Os cuidados básicos recomendados pela OMS, como evitar aglomerações, usar máscara e álcool em gel, manter o distanciamento social, ainda são considerados pelos especialistas, a forma mais eficaz de enfrentar o vírus. E, além disso, a conscientização em massa, junto das ações do Poder Público.

Corrupção na pandemia

Infelizmente, a corrupção também se fez presente durante esse primeiro ano da pandemia no Amazonas. No mês de junho, enquanto pessoas morriam por falta de equipamentos nos hospitais públicos, uma investigação apontou supostas fraudes e desvios na compra de respiradores, com dispensa de licitação, de uma importadora de vinhos — os equipamentos deveriam ser destinados ao combate ao novo coronavírus, que causa a doença Covid-19.

Na época, a polícia cumpriu mandados de prisão, entre eles o da secretária de saúde, Simone Papaiz, e mandados de busca e apreensão na sede do governo do estado, além de prender outros nomes ligados ao Governo. O vice-governador do Estado também foi alvo da Operação.

Mais recentemente, outro acontecimento que revoltou a população amazonense foi a situação dos fura-filas da vacina. Na primeira fase de vacinação no Amazonas, apenas profissionais de saúde e idosos poderiam se vacinar, no entanto, pessoas ligadas a empresas de parceria com a prefeitura de Manaus.

O Ministério Público Estadual do Amazonas chegou a pedir a prisão do prefeito de Manaus, David Almeida, e da secretária municipal de Saúde, Shadia Fraxe, na ação que denuncia irregularidades na aplicação da vacina e no favorecimento de pessoas que teriam furado a fila do grupo prioritário da vacinação contra a Covid-19.


Fonte: G1 Amazonas

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