Pandemia acelera e Brasil atinge marca de 400 mil mortes pela Covid-19

Pandemia acelera e Brasil atinge marca de 400 mil mortes pela Covid-19
Fileiras de sepulturas foram cavadas recentemente no cemitério Campo da Esperança, em Brasília, Brasil, terça-feira, 23 de março de 2021. (Foto: AP Photo / Eraldo Peres)

tragédia provocada pela Covid-19 no Brasil não é visível apenas na impressionante marca, atingida nesta quinta-feira (29), de 400.021 óbitos registrados desde o início da pandemia, segundo dados do consórcio de veículos de imprensa. 

Nos últimos 36 dias, foram registradas 100 mil mortes. Isso significa que um de cada 4 mortes pela Covid-19 no Brasil desde o início aconteceram nesse período.

O peso do novo coronavírus sobre o sistema de saúde também surge em outro indicador — uma em cada cinco mortes notificadas no país (21,7%) desde março do ano passado é decorrente da doença. O índice foi calculado a partir de dados da Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen), entidade que representa todos os cartórios do país. 

primeira morte provocada pela pandemia, segundo registros oficiais, ocorreu no dia 17 de março do ano passado. Desde aquele mês, o Brasil contabilizou 1.843.281 óbitos totais. A associação assinala que os cartórios são responsáveis pelo fornecimento de dados — e o número, portanto, pode estar defasado — mas relação de um quinto deve permanecer.

Apesar do percentual elevado, pesquisadores acreditam que ela pode ser ainda maior: a subnotificação ainda é alta no país, já que muitos infectados pelo coronavírus morrem em casa, sem recorrer ao atendimento médico, devido ao colapso do sistema hospitalar. Há, também, óbitos por Covid-19 que são registrados como síndrome respiratória aguda grave (SRAG) sem causa determinada.

Relembre as lamentáveis marcas atingidas no Brasil:

1ª morte por Covid-19

  • Dia 17 de março de 2020

100 mil mortes por Covid-19

  • Dia 8 de agosto de 2020 (após 149 dias da 1ª morte)

200 mil mortes por Covid-19

  • Dia 1º de janeiro de 2021 (após 152 dias das 100 mil mortes)

300 mil mortes por Covid-19

  • Dia 24 de março de 2021 (após 76 dias das 200 mil mortes)

400 mil mortes por Covid-19

  • Dia 29 de abril de 2021 (após 36 dias das 300 mil mortes)

A escalada da pandemia é comprovada por seguidos recordes batidos nas últimas semanas. Desde a chegada do coronavírus no Brasil, houve 18 ocasiões em que o país registrou mais de 3 mil mortes diárias em decorrência da doença — 13 vezes em abril e cinco em março deste ano.

O Brasil é o segundo país em óbitos acumulados, atrás apenas dos EUA (cerca de 575 mil), e também o segundo no registro de novas ocorrências da Covid-19 na última semana, ranking liderado agora pela Índia. A taxa de letalidade mais que dobrou, de 2% no final de 2020, para 4,4% na semana passada.

Para o sanitarista Christovam Barcellos, coordenador do MonitoraCovid-19 da Fiocruz, a situação da pandemia poderia ser ainda mais grave. Segundo ele, uma investigação do registro de óbitos apontaria que a Covid-19 já teria matado mais de 500 mil pessoas no país. O diagnóstico caberia às secretarias de Saúde, mas muitas não têm a infraestrutura necessária para o trabalho.

Barcellos destaca ainda as mortes “indiretas” causadas pela pressão que a pandemia causou sobre as redes hospitalares.

“Há complicações que não puderam ser atendidas, devido a fatores como a exaustão dos profissionais de saúde, a falta de oxigênio e medicamentos nos hospitais e a superlotação de UTIs — explica. — Este quadro contribuiu para óbitos indiretos: quantas pessoas tiveram infarto e não conseguiram ser socorridas? Quantos tiveram cirurgias adiadas e viram sua saúde piorar?”

PLATÔ ELEVADO DA PANDEMIA

Um boletim divulgado nesta quarta-feira pela Fiocruz demonstra sinais tímidos de queda no número de casos (-1,5% ao dia) e óbitos (-1,8% diários) por Covid-19 no país. Para Barcellos, seria um indicativo de que o Brasil teria atingido ao pico da pandemia. 

No entanto, como a reprodução do coronavírus ainda é acelerada, não há tendência de queda na curva epidemiológica.

Parentes choram durante a cerimônia fúnebre de um ente faleceu por complicações relacionadas ao COVID-19, no cemitério de Inahuma, no Rio de Janeiro, Brasil. (Foto: AP / Bruna Prado)

— Isso significaria que chegamos a um platô, da mesma forma como na primeira onda, em meados de 2020. A diferença é que, desta vez, estacionamos em um índice muito mais elevado. No ano passado, eram cerca de mil óbitos por dia. Agora, atingimos até 3 mil — alerta. — A lição que deveríamos ter aprendido é que este momento deve ser o de reorganização de serviços, e não de flexibilização total.

Outro obstáculo é a circulação de variantes do coronavírus, especialmente a P.1, que emergiu na Amazônia em novembro do ano passado. Um estudo divulgado na quarta-feira (28) pela Secretaria estadual de Saúde de São Paulo indicou que a variante foi detectada em 90% de 1.439 sequenciamentos genéticos analisados pelo Instituto Adolfo Lutz (SP).

A primeira onda do coronavírus demorou meses para atingir o país inteiro, destaca Barcellos. A P.1. cumpriu o mesmo trajeto em semanas. Não está comprovado se a variante é mais letal, mas, segundo pesquisadores, a velocidade do contágio poderia atrasar a erradicação da pandemia.

INVERNO QUE SE APROXIMA É DESAFIO

Eliseu Alves Waldman, epidemiologista e professor da Faculdade de Saúde Pública da USP, pondera que o país pode ter atingido o pico da segunda onda da pandemia, mas que enfrentará um novo desafio nas próximas semanas:

— Entraremos no inverno no fim do mês que vem, quando ocorreu o pico da primeira onda. Então, pode haver um novo recrudescimento do Sars-CoV-2 nesta época, como ocorre com todos os vírus respiratórios — explica Waldman. — Como não tomamos medidas mais radicais para diminuir a circulação do vírus, pode ser que ela seja mantida em um patamar muito alto.

Além das mais de 400 mil mortes, Waldman atenta que o país conta com aproximadamente 14,5 milhões de infecções confirmadas. Muitos casos, segundo o epidemiologista, são de pessoas que foram internadas. Embora tenham conseguido sobreviver à Covid-19, podem ter sido vitimadas com outras mazelas.

— O vírus deixa sequelas, principalmente respiratórias, cujas consequências a médio e longo prazos ainda são desconhecidas, mas que demandarão um atendimento especial. Hoje, a prioridade ainda é evitar o colapso do sistema de saúde — atenta o epidemiologista. — A pandemia também está provocando a diminuição da cobertura de pacientes com outras doenças infecciosas ou doenças crônicas não transmissíveis, que deixaram de ser atendidos. É o caso da tuberculose, que tem uma incidência muito alta no Brasil, da hipertensão e do diabetes.

Também preocupa a marcha lenta da vacinação no país. Iniciada em janeiro, a campanha de imunização contemplou com uma dose apenas 14,5% da população, o equivalente a 30,5 milhões de pessoas. O Brasil é o quarto país que mais aplicou vacinas, mas somente o 22º em doses aplicadas a cada cem habitantes, de uma lista 52 nações que reportam cobertura vacinal para Covid-19.

Barcellos e Waldman indicam que a imunização, que começou em grupos prioritários — idosos, profissionais de saúde e populações vulneráveis, como os indígenas — deve provocar um efeito cascata, que reduzirá a pressão nos hospitais sobre casos graves. 

A redução dos índices de mortalidade por Covid-19 já foi registrada em pessoas acima de 80 anos, e em breve poderá será vista em pessoas de outras faixas etárias. No entanto, devido à demora para comprar vacinas, o país segue longe da imunização em massa.


Fonte: Yahoo

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