
Redação – O retorno do El Niño em 2026 deve começar a produzir efeitos a partir de maio e ganhar força ao longo do ano, segundo as análises climáticas mais recentes. Dados da empresa Climatempo indicam um cenário com potencial de impactos semelhantes aos observados em 2023, marcado por temporais severos, ondas de calor intensas e irregularidade nas chuvas em diferentes regiões do País. A expectativa é de um evento com intensidade relevante, com reflexos tanto no campo quanto nas cidades.
“Possivelmente, o El Niño este ano terá um início acelerado, e a expectativa é de que seja, no mínimo, um evento climático com intensidade de moderada a forte”, afirma o meteorologista da Climatempo, Vinicius Lucyrio. As projeções oficiais mais recentes da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos (Noaa) indicam probabilidade maior de um El Niño moderado ou mais intenso entre agosto, setembro e outubro, período em que o fenômeno tende a se consolidar.
“Normalmente o pico costuma ser entre novembro e janeiro”, diz Lucyrio. Ele explica que o aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial eleva a temperatura do ar e altera os padrões de chuva no Brasil, provocando precipitações irregulares na maior parte do território. Ao mesmo tempo, aumenta o volume de chuva no Rio Grande do Sul e reduz no extremo norte do País, deixando Amazônia e Nordeste mais suscetíveis a seca severa.

Amazônia, cheias e abastecimento
Na Amazônia, as projeções indicam um comportamento contrastante dos rios ao longo do ano. “As previsões apontam ainda que a cheia dos rios na Amazônia em 2026 deve ser maior do que a do ano passado, seguida por um período de vazante muito mais acentuado”, afirma Lucyrio. Ele pondera, ainda, que é impossível afirmar se a navegabilidade será comprometida, mas admite a probabilidade de longos períodos de calor e tempo seco na região.
O início do próximo período úmido também pode apresentar sinais enganosos em algumas áreas do País. “Poderemos ter algumas pancadas de chuva atípicas entre agosto e setembro no Brasil Central, no sudeste do Pará, em Minas Gerais, em São Paulo e no interior nordestino”, diz. Para ele, essas precipitações não indicarão a retomada regular das chuvas.

“O começo do próximo período de chuvas deve ter um padrão muito irregular e insuficiente para repor a umidade do solo e dos reservatórios”, afirma o meteorologista. Ele alerta que essa condição pode levar a problemas de abastecimento, geração de energia hidrelétrica e instalação de algumas culturas agrícolas, ampliando os efeitos do fenômeno sobre a economia.
A Climatempo informou que seguirá monitorando as atualizações dos modelos climáticos globais e os dados do CT2W, modelo proprietário que combina diferentes sistemas de previsão. O acompanhamento ocorre em conjunto com o Sistema de Monitoramento e Alerta (SMAC), que fornece relatórios e análises de risco em tempo real para subsidiar o planejamento de empresas e governos diante da evolução do El Niño.
Risco de extremos climáticos
Lucyrio ressalta que uma das maiores preocupações associadas ao El Niño é o aumento de temporais severos, impulsionados pelo ar e pelo oceano mais quentes. “Os dois anos mais quentes já registrados no planeta Terra foram 2024 e 2023, anos marcados pela influência de um forte El Niño, quando esses incidentes climáticos foram mais frequentes”, afirma. Ele relaciona o aquecimento global recente à intensificação desses eventos.
No Sul do País, a tendência é de um inverno mais instável e nublado. “Os eventos de chuva abrangente, com risco de enchentes, além dos fortes temporais e CCMs (Complexos Convectivos de Mesoescala) tendem a aumentar expressivamente na primavera”, diz o meteorologista. Parte dessa instabilidade poderá atingir também Mato Grosso do Sul e São Paulo, ampliando a área sob risco de eventos extremos.

As análises indicam ainda que o período mais frio de 2026 deve concentrar incursões de ar frio mais amplas entre maio e junho. A partir de julho, com o desenvolvimento mais consistente do fenômeno e o acoplamento entre oceano e atmosfera, essa condição tende a perder força. “A tendência é termos extremos de calor e tempo seco a partir do final do inverno e a primavera de 2026”, afirma Lucyrio.
“Isto mostra uma certa similaridade com as condições de 2023, no sentido de que poderemos ter grandes, frequentes, longas e intensas ondas de calor em grande parte do interior do País”, acrescenta. Ele explica que esses episódios devem atingir principalmente áreas do interior, elevando o risco de impactos sobre a saúde, o consumo de água e a dinâmica urbana.
Fonte: AGÊNCIA CENARIUM
