
Redação – O Dia Internacional da Mulher, celebrado neste domingo, 8, não se limita a uma data simbólica no calendário. A data convida à reflexão sobre desigualdades históricas e sobre as transformações impulsionadas por mulheres que ocupam espaços antes negados a elas. Em diferentes áreas profissionais, essas trajetórias revelam avanços construídos por meio de disputas sociais, políticas e culturais por reconhecimento, autonomia e igualdade.
No Amazonas, as histórias da tenente-coronel Adriana Sales, da Polícia Militar do Amazonas (PM-AM), e da eletricista Shirley Gatto, da Amazonas Energia, ilustram esse movimento. Em instituições historicamente masculinizadas, como a segurança pública e o setor elétrico, elas ocupam funções estratégicas e ajudam a redesenhar os limites impostos às mulheres no mundo do trabalho.
Durante décadas, profissões associadas ao risco, à autoridade ou ao trabalho técnico pesado foram reservadas quase exclusivamente aos homens. Essa divisão, construída socialmente, ajudou a reforçar estereótipos que limitaram o acesso feminino a determinadas carreiras.

Mulher no comando
Com quase duas décadas de atuação na Polícia Militar do Amazonas, a tenente-coronel Adriana Sales construiu carreira em um ambiente institucional marcado pela hierarquia e pela predominância masculina. Desde que ingressou na corporação, em 2008, durante o curso de formação de oficiais, acumulou experiências em funções operacionais e administrativas, incluindo o comando da 27ª Companhia Interativa Comunitária (Cicom), na Zona Norte de Manaus.
Entre os momentos que marcaram sua trajetória está a atuação pioneira na implementação do programa Ronda Maria da Penha na área da 27ª Cicom. A iniciativa, voltada ao acompanhamento de mulheres com medidas protetivas contra violência doméstica, passou posteriormente a ser ampliada na capital com atuação conjunta da Polícia Militar e da Delegacia Especializada em Crimes Contra a Mulher (DECCM).
“Eu fui a primeira comandante. Trouxemos o programa do Rio Grande do Sul e implementamos aqui no Amazonas”, relembra.

Para Adriana, assumir funções de liderança dentro da corporação representa também a continuidade de um caminho aberto por outras mulheres que ingressaram na Polícia Militar em décadas anteriores. “A gente vai ocupando espaços com responsabilidade e profissionalismo. Muitas mulheres vieram antes e abriram essas portas”, afirma.
Se, na segurança pública, o desafio é exercer autoridade em um ambiente historicamente masculino, no setor elétrico as barreiras também passam pela ideia de que certas atividades exigiriam características associadas apenas aos homens, como força física ou resistência ao risco. É nesse contexto que se insere a trajetória da eletricista Shirley Gatto.
Profissional da Amazonas Energia, ela atua diretamente na manutenção da rede elétrica, em uma rotina que inclui subir em postes de alta tensão, lidar com equipamentos especializados e enfrentar diferentes condições de campo.
À REVISTA CENARIUM, Shirley descreveu o cotidiano de uma profissão que exige preparo técnico, atenção constante e coragem. “Sempre gostei da área de eletricista. Em casa, faço o que posso sozinha, não espero por homem, e não há diferença de profissão por ser homem ou mulher”, afirmou.

Para ela, ocupar esse espaço também significa desafiar expectativas sociais que historicamente limitaram as escolhas profissionais das mulheres. O trabalho, explica, é marcado pela cooperação entre equipes e pelo respeito às funções desempenhadas por cada profissional. Ainda assim, sua presença em campo frequentemente chama atenção, reflexo da baixa presença feminina nesse tipo de atividade.
Apesar disso, Shirley afirma que a confiança é fundamental para quem decide trilhar caminhos considerados fora do padrão. “Não desistam dos seus sonhos. Quando a gente tem um objetivo, corre atrás e realiza. Vai da mulher ter confiança em si mesma e acreditar que é capaz”, diz.
Dados
Histórias como as de Adriana e Shirley não surgem isoladamente. Elas fazem parte de um movimento mais amplo de transformação no mercado de trabalho, impulsionado também pelas redes de apoio entre mulheres.
Uma pesquisa realizada pela Nexus Pesquisa e Inteligência de Dados, em parceria com a Todas Group, aponta que as próprias mulheres têm desempenhado papel central nesse processo. O levantamento, que ouviu 1.534 mulheres em cargos de liderança em todo o País, revelou que 41% das entrevistadas afirmaram ter recebido apoio principalmente de outras mulheres ao longo da trajetória profissional.
O percentual é superior ao das que disseram ter sido impulsionadas majoritariamente por homens, que representam 14% das respostas. Outras 29% relataram ter recebido apoio de ambos.

Para a CEO da Todas Group, Simone Murata, os dados mostram que o avanço feminino no mercado de trabalho está diretamente ligado à construção de redes de solidariedade e colaboração entre mulheres. “Não adianta nós mulheres estarmos preparadas, se você não tem uma rede e uma aliança robusta por trás de você que a ajude a crescer”, afirma Simone.
Ocupar espaços
Nesse sentido, trajetórias como as de Adriana Sales e Shirley Gatto ajudam a traduzir, na prática, o que os dados indicam. Ao ocupar espaços historicamente masculinizados, elas não apenas consolidam suas próprias carreiras, mas também ampliam referências e possibilidades para outras mulheres.
Assim, cada avanço individual passa a ter também um efeito coletivo: abrir caminhos, fortalecer redes e transformar, gradualmente, estruturas que, durante muito tempo, limitaram a presença feminina em determinados espaços profissionais.
Fonte: AGÊNCIA CENARIUM
