
Redação – Uma ponte entre o passado arqueológico e o presente das comunidades ribeirinhas está sendo construída no Médio Solimões. Mulheres da comunidade da Missão, em Tefé (AM), estão resgatando a produção da japuna — um utensílio cerâmico tradicionalmente utilizado por povos indígenas para o preparo de farinha. A iniciativa, liderada pelo Instituto Mamirauá, transforma achados arqueológicos em uma oportunidade de preservação cultural e autonomia econômica.
Do Solo para as Mãos
O projeto “Cadeias Operatórias das Japuna” nasceu a partir de escavações realizadas em 2017. Na época, arqueólogos encontraram fragmentos e peças que indicavam o uso milenar desse tipo de cerâmica na região. Em vez de manter o conhecimento restrito aos laboratórios, os pesquisadores buscaram identificar se as técnicas de confecção ainda sobreviviam na memória das moradoras locais.
Em 2024, o encontro com as artesãs da Missão revelou que o saber não havia se perdido, mas estava guardado em lembranças familiares.
“Lembro como se fosse hoje. Cada família produzia em sua própria casa. Isso me traz a necessidade de voltar a produzir”, afirma Dona Lucila Frazão, de 69 anos, descendente do povo Miranha, que aprendeu o ofício com sua avó.

O Processo de Produção
Diferente da produção industrial, a confecção das japunas segue um ciclo natural e tradicional, que inclui:
- Extração: Coleta do barro diretamente na comunidade.
- Modelagem: Escultura manual das peças, respeitando o design ancestral.
- Queima: Processo feito de forma natural, garantindo a resistência do material.
- Finalização: Acabamento técnico para uso doméstico ou decorativo.
Além das japunas, as ceramistas expandiram a produção para vasos, fruteiras e panelas, o que abre novas frentes de geração de renda para as famílias envolvidas.

Metodologia e Futuro da Pesquisa
O trabalho do Instituto Mamirauá é dividido em três pilares fundamentais que garantem o rigor científico e o respeito às tradições:
| Eixo de Pesquisa | Descrição |
| Arqueológico | Baseado em escavações e análise de peças físicas encontradas no solo. |
| Etno-histórico | Cruzamento de dados de livros antigos e relatos de cronistas do século XIX. |
| Etnográfico | Observação direta e documentação das técnicas usadas pelas ceramistas hoje. |
Para a pesquisadora Inês Vitória, o projeto valoriza histórias que não estão nos livros oficiais. “Espero que conheçam histórias que vivem nas memórias dos moradores; elas merecem ser valorizadas”, destaca.
Próximos Passos: Em abril de 2026, a expedição segue para a comunidade de Nogueira, onde os pesquisadores buscarão novas detentoras desses saberes ancestrais, continuando o mapeamento da herança cultural do Amazonas.
Fonte: G1 Amazonas
