
Redação – O calendário de maio, que para muitos representa celebração, tornou-se um território de dor para Débora Maria da Silva. Há 20 anos, o que deveria ser a comemoração de seu 48º aniversário e do Dia das Mães transformou-se no início de uma vigília que dura até hoje. Seu filho mais velho, Edson Rogério Silva dos Santos, um gari de 29 anos, foi uma das centenas de vítimas dos episódios que cicatrizaram o estado de São Paulo em 2006.
O último adeus
A memória do último encontro é nítida. Após um churrasco em família para celebrar a data, Edson despediu-se com um beijo, mencionando o trabalho no dia seguinte. Ele nunca chegou ao destino. Segundo relatos colhidos por Débora na época, o jovem foi abordado por viaturas após parar em um posto de gasolina por falta de combustível. O desfecho ocorreu pouco depois: Edson foi morto com cinco tiros em um local próximo.
Para Débora, a perda foi física e emocional. Ela descreve sentir cada disparo como se atingisse a si própria. “O tiro no coração eu sinto até hoje; ele dói. Foi o fatal”, recorda.
O contexto dos “Crimes de Maio”
O caso de Edson não foi isolado. Em 2006, São Paulo viveu uma onda de violência sem precedentes, desencadeada por ataques de uma organização criminosa e seguida por uma reação de forças de segurança e grupos paralelos. O saldo foi de mais de 500 mortos em dez dias. A maioria das vítimas compartilhava o perfil de Edson: jovens, negros e moradores de áreas periféricas.
Diante da tragédia e da falta de respostas oficiais, Débora transformou seu luto em ação coletiva. Ela fundou o movimento Mães de Maio, uma rede que acolhe famílias vítimas da violência e luta contra a impunidade. O grupo destaca que sua dor não escolhe lado, chegando a acolher inclusive mães de policiais, unidas pelo mesmo vazio da perda.
A batalha contra o esquecimento
Vinte anos depois, a preocupação agora é com o tempo. Débora teme a prescrição dos crimes, o que extinguiria a possibilidade de punição legal para os responsáveis. Recentemente, o movimento uniu-se a organizações de direitos humanos para levar o caso à ONU, denunciando a falta de reparações e de esclarecimentos por parte do Estado brasileiro.
Para Débora e tantas outras famílias, a luta vai além da punição: é sobre a dignidade de quem partiu.
“Nossos filhos não são apenas ‘suspeitos’. Eles têm nome, sobrenome e história. Não parimos suspeitos, parimos seres humanos”, desabafa.
O legado dessa resistência será tema do especial Crimes de Maio, 20 anos sem Respostas, que revisita a trajetória dessas mulheres que, mesmo feridas, decidiram não silenciar diante da história.
Fonte: Agência Brasil
