
Redação – Uma ação conjunta coordenada pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP) resultou, nesta terça-feira (9), na prisão temporária de três pessoas suspeitas de integrar um esquema de infiltração institucional a serviço do Primeiro Comando da Capital (PCC). Entre os detidos estão um chefe de investigadores da Polícia Civil, um ex-policial civil e um advogado, que atuava como estagiário dentro do próprio Ministério Público à época dos fatos.
A Operação Infiltrados cumpre ainda dez mandados de busca e apreensão nas cidades de Campinas e Cardoso, no interior paulista. O foco das buscas inclui as residências dos suspeitos, um escritório de advocacia e as dependências de um policial penal, também investigado por suspeita de cooperação com o grupo.
O Mecanismo de Infiltração e Extorsão
As investigações do Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco) apontam que o grupo operava em duas frentes distintas, utilizando o acesso a sistemas restritos do Estado para obter vantagens financeiras e blindar lideranças da facção.
1. Vazamento de Dados e Proteção a Lideranças
O chefe de investigadores preso exercia suas funções na Delegacia de Investigação sobre Entorpecentes (Dise) de Campinas. De acordo com o Gaeco, registros em vídeo indicam que o policial se reuniu com um dos principais articuladores do PCC uma semana antes de uma grande operação contra a facção. A suspeita é de que informações sigilosas sobre o andamento das investigações tenham sido repassadas em troca de pagamento.
2. Extorsão de Criminosos por Ex-Estagiário
A segunda vertente envolvia um estudante de direito que estagiava em uma Promotoria de Justiça Criminal em Campinas. Segundo o Ministério Público, o jovem teria ingressado na instituição com o propósito de acessar bancos de dados sigilosos.
Com os relatórios de inteligência em mãos, ele identificava criminosos de alto poder aquisitivo e exigia propina para não repassar os dados às equipes de campo do Gaeco.
- O caso “Dragão”: Em um dos telefones apreendidos com Maurício Silveira Zambaldi (conhecido como “Dragão”, empresário detido em 2025), o Gaeco localizou uma tentativa de extorsão no valor de R$ 500 mil. A mensagem, que simulava ter origem em Balneário Camboriú (SC), foi rastreada e vinculada ao perfil do então estagiário.
- Pouco após o início das apreensões do ano passado, o estagiário desligou-se do Ministério Público. Atualmente aprovado no exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), ele exercia a advocacia em um escritório que também foi alvo de busca e apreensão nesta terça-feira.
Rede de Apoio: Para operacionalizar as cobranças e garantir a intimidação das vítimas, o ex-estagiário contava com o auxílio de um policial penal e de um ex-policial civil — este último já desvinculado dos quadros do Estado após condenação anterior por extorsão mediante sequestro.
Origem da Investigação
A Operação Infiltrados é um desdobramento direto de duas grandes frentes de trabalho iniciadas pelo Gaeco no segundo semestre do ano passado:
| Operação de Origem | Data de Deflagração | Escopo Principal |
| Pronta Resposta | Agosto de 2025 | Identificação de um plano de atentado contra a vida do promotor de Justiça Amauri Silveira Filho, do Gaeco. |
| Off White | Outubro de 2025 | Desarticulação de uma rede de lavagem de dinheiro ligada a Sérgio Luiz de Freitas (conhecido como “Mijão” ou “Xixi”), apontado como liderança do PCC em liberdade. |
Foi a partir do cruzamento de dados e materiais apreendidos nessas duas ações que o Gaeco identificou que os investigados de alto escalão recebiam alertas internos e, simultaneamente, eram chantageados por agentes públicos com base em dados vazados da própria promotoria.
Atuação Institucional
Por envolver servidores das forças de segurança e um membro inscrito na Ordem dos Advogados, os mandados foram acompanhados pelas seguintes instituições de controle:
- Corregedoria da Polícia Civil
- Corregedoria da Polícia Penal
- Comissão de Prerrogativas da OAB (especificamente para acompanhar a busca no escritório de advocacia)
- 1º Batalhão de Ações Especiais de Polícia (BAEP)
Em nota oficial, o Ministério Público de São Paulo ressaltou que a apuração conjunta demonstra o compromisso das instituições estaduais em identificar desvios internos. O órgão enfatizou que a cooperação entre as polícias e as corregedorias visa garantir a lisura e a transparência no serviço público, expurgando elementos integrados a organizações criminosas.

A fase atual da investigação busca determinar se os valores exigidos nas tentativas de extorsão foram efetivamente pagos pelos criminosos e se há outros servidores envolvidos no fornecimento de credenciais de acesso aos sistemas de Justiça.
Fonte: G1 São Paulo
