
Redação – Quatro anos após os homicídios que chocaram o país e o mundo — o indigenista Bruno Pereira e o jornalista britânico Dom Phillips —, a maior reserva de povos isolados do planeta continua imersa em um ciclo de vulnerabilidade. Situado na tríplice fronteira entre Brasil, Peru e Colômbia, o Vale do Javari (AM) transformou-se em um ponto estratégico para o escoamento de drogas, pesca predatória, caça e garimpo ilegal.
O caso de 2022 evidenciou os riscos extremos enfrentados por quem atua na preservação da floresta. Hoje, investigações científicas e relatos de campo demonstram que essas ilicitudes não são fatos isolados, mas engrenagens de uma cadeia criminosa complexa que pressiona tanto as comunidades locais quanto os órgãos de proteção do Estado.
Uma Economia do Crime Conectada
Um levantamento publicado na revista científica Nature Sustainability, construído em parceria com o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) e lideranças locais, revela como o ecossistema do crime opera na região.
De acordo com a pesquisadora Lívia Laureto, os crimes ambientais servem de suporte logístico e financeiro para o narcotráfico internacional, utilizando os rios amazônicos como rotas de trânsito.
- “O combate precisa ir além do pescador ou do garimpeiro na ponta da linha”, aponta a pesquisadora.
- Para ela, o foco das autoridades deve desmantelar os financiadores e as estruturas comerciais que legalizam os produtos extraídos de forma criminosa.
Nas bordas da Terra Indígena, a grilagem de terras utiliza brechas burocráticas. Dados do estudo apontam que o Cadastro Ambiental Rural (CAR) — ferramenta autodeclaratória — tem sido instrumentalizado como um falso título de propriedade para legitimar a derrubada de matas nativas e a invasão de terras públicas na região de transição.
A Linha de Frente Indígena e os Desafios de Proteção
Na ausência de uma presença estatal capilarizada e permanente, a própria comunidade assumiu o encargo de monitorar o território. A Equipe de Vigilância da Univaja (EVU), liderada por nomes como o indigenista Orlando Possuelo, realiza patrulhamentos fluviais contínuos.
No entanto, essa atuação voluntária expõe os vigilantes a riscos severos. Sem poder de polícia ou armamento institucional, eles tornam-se alvos fáceis para invasores armados. Casos de violência extrema, como a captura e tortura de um indígena nas águas da reserva registrada no primeiro semestre deste ano, ilustram o grau de hostilidade enfrentado no cotidiano.
A situação também gera alertas sobre a integridade de povos de contato recente e isolados. O procurador jurídico da Univaja, Eliesio Marubo, destaca que a expansão de frentes criminosas restringe o espaço de circulação desses grupos, elevando o risco de conflitos e de contaminação por patógenos externos.
Resposta e Posicionamento dos Órgãos Oficiais
Diante do cenário de pressão e das críticas quanto à lentidão estrutural, diferentes instâncias governamentais têm mobilizado frentes operacionais na região:
- Ibama e Funai: Realizaram ações conjuntas nas calhas dos rios Javari e Itaquaí, resultando em apreensões de materiais ilícitos, além do reforço de dezenas de contratos temporários para atuação no entorno da reserva.
- Segurança Pública do Estado (SSP-AM) e Governo Federal: Intensificaram o patrulhamento fluvial por meio de forças integradas, destacando o uso da Base Fluvial Arpão I, o apoio da Polícia Federal e a atuação da Força Nacional de Segurança Pública na proteção de servidores e postos avançados de fiscalização.
Embora o aparato de segurança tenha recebido reforços recentes, especialistas e lideranças indígenas reforçam que o desafio no Vale do Javari exige planejamento estratégico de longo prazo, inteligência financeira para cortar o fluxo do dinheiro ilícito e uma política permanente de soberania territorial.
Como você avalia os caminhos para equilibrar a segurança das comunidades tradicionais com o combate ao crime organizado em áreas remotas da Amazônia?
Fonte: G1 Amazonas
