
Redação – Entre 2024 e 2026, a segurança pública no Amazonas registrou um volume inédito de ações integradas entre as esferas estadual e federal. Com um aporte de R$ 265 milhões do Governo Federal para modernização e inteligência, o saldo institucional impressiona: 1.902 prisões, cerca de 57 toneladas de entorpecentes entre apreensões e incinerações, e um prejuízo de R$ 263,48 milhões imposto às estruturas criminosas.
Apesar do cerco financeiro e de operações de grande repercussão — como a Operação Ágata Amazônia, em maio, e a interceptação de entorpecentes em Codajás, em julho —, analistas e relatórios oficiais apontam um cenário complexo. As facções criminosas continuam mantendo o controle sobre as calhas dos rios e expandindo sua influência na floresta.
O Peso da Logística Fluvial e os Gargalos Estruturais
A principal dificuldade no combate ao narcotráfico e aos crimes conexos na região reside na vastidão geográfica. O escoamento de cocaína pela calha do Rio Solimões rumo aos grandes centros urbanos e ao mercado externo utiliza uma malha fluvial gigantesca, difícil de ser totalmente fiscalizada pelo efetivo disponível das forças de segurança e das Forças Armadas.
Para o cientista político e historiador Joel Paviotti, o prejuízo financeiro gerado pelas operações costuma ser absorvido pelas organizações como um mero custo operacional, dado o alto rendimento do setor.
“Não há como fazer segurança pública sem muito dinheiro investido de forma contínua. As rotas são imensas e o efetivo não dá conta de mapear e conter todo o volume transportado. Além disso, os lucros bilionários alimentam redes de corrupção que dificultam o trabalho de fiscalização”, analisa Paviotti.
O relatório da Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp), por meio da Diopi, destaca que os investimentos recentes serviram justamente para tentar estancar esses corredores logísticos. Foram aplicados recursos em:
- 20 operações estratégicas e 139 mandados de prisão cumpridos.
- 457.946 ações ostensivas e 164 missões de inteligência.
- 471 armas de fogo e 56 veículos apreendidos.
- 72 toneladas de minério ilegal recolhidas.
- R$ 1,21 milhão em equipamentos estruturantes, incluindo drones, viaturas e ferramentas de extração de dados para mais de 90 agentes capacitados.
A Mutação do Crime: Do Narcotráfico aos Crimes Ambientais
Levantamentos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública demonstram que a dinâmica criminal na região passou por transformações profundas nos últimos anos:
- Reconfiguração Territorial: Após o enfraquecimento de grupos locais históricos, o Comando Vermelho (CV) consolidou forte presença na rota do Solimões, mantendo disputas estratégicas com o Primeiro Comando da Capital (PCC) na faixa de tríplice fronteira com Colômbia e Peru.
- Economia Híbrida e Lavagem de Dinheiro: As organizações diversificaram suas fontes de receita. O garimpo ilegal, a extração clandestina de madeira, a grilagem de terras e o tráfico de ouro passaram a funcionar como ferramentas diretas de lavagem de capitais e como moeda de troca para financiar o tráfico de armas e drogas.
Respostas Institucionais
Diante do cenário, os órgãos de controle reforçam que as estratégias de atuação vêm sendo adaptadas.
- Forças Armadas: Destacam que atuam de forma subsidiária e integrada em patrulhamentos fluviais e aéreos na faixa de fronteira, buscando sufocar as rotas logísticas e apoiar o combate a ilícitos ambientais.
- Ministério da Justiça e Segurança Pública: Aponta o desenvolvimento de iniciativas voltadas à desarticulação financeira das facções e ao fortalecimento de políticas públicas nas regiões do Alto Solimões e Alto Rio Negro.
O avanço do Estado sobre a malha fluvial amazônica permanece como um dos maiores testes de planejamento logístico e inteligência para a segurança pública brasileira na atualidade.
Qual aspecto da segurança e da dinâmica logística na região amazônica você gostaria de explorar em profundidade?
Fonte: G1 Amazonas
