Debate Econômico: Juros Nominais superam Gastos Primários na pressão sobre a Dívida Pública

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Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Redação – Enquanto o senso comum econômico frequentemente aponta o controle de gastos do governo (ajuste fiscal) como o principal remédio para equilibrar as contas do país, um grupo de especialistas defende que o verdadeiro motor do endividamento brasileiro não é o que se gasta com serviços, mas sim o custo dos juros da dívida.

A Composição do Endividamento

Dados recentes reforçam essa perspectiva. Em um período de 12 meses (até março de 2026), o Brasil destinou R$ 1,08 trilhão apenas ao pagamento de juros nominais, o equivalente a mais de 8% do PIB. Segundo o Banco Central, a subida da Dívida Bruta para 80,1% do PIB foi impulsionada majoritariamente por esses juros, e não por novos gastos em áreas como saúde ou educação.

A professora Juliane Furno (UFF) classifica como contraditório o argumento de que juros altos são uma resposta ao aumento da dívida. Segundo ela, ao decompor os números, nota-se que o “déficit primário” — a diferença entre o que o governo arrecada e o que gasta com a máquina pública — é o componente que menos contribui para o crescimento do estoque da dívida.

Visões em Conflito: Demanda vs. Oferta

A divergência central reside na forma como se combate a inflação e se gere o Estado:

  • Visão Tradicional (Mercado/BC): Defende que gastos públicos elevados aumentam a demanda, gerando inflação. Para conter isso, o Banco Central sobe a taxa Selic e pede “disciplina fiscal” (cortes de gastos).
  • Visão das Especialistas Citadas: Argumentam que os juros altos, na verdade, asfixiam a economia. A inflação deveria ser combatida pelo estímulo à oferta (produção). Juros elevados encarecem investimentos produtivos, impedindo que a indústria e o comércio cresçam, o que resolveria a inflação de forma mais sustentável.

O Papel Social do Gasto Público

Para a professora Maria Mello de Malta (UFRJ), a comparação do Estado com uma economia doméstica (“não se pode gastar mais do que ganha”) é imprecisa. Ela explica que o Estado possui soberania monetária e a função de garantir direitos constitucionais que não seguem a lógica do lucro. Reduzir esses gastos teria um efeito reverso: menos crescimento, mais desemprego e, consequentemente, menos arrecadação, o que acabaria por aumentar a dívida.

“O gasto público tem um efeito multiplicador. Gastar menos pode reduzir a receita do Estado ao frear a economia”, aponta Malta.

Privatizações e Setor Financeiro

O debate também alcança as privatizações. Enquanto alguns defendem a venda de estatais para abater a dívida, economistas como as ouvidas no relatório alertam que isso retira do Estado fontes futuras de lucro e dividendos (como ocorreu com a Eletrobras), transferindo a rentabilidade para o setor privado sem necessariamente resolver o problema estrutural dos juros.

Maria Lourdes Mollo (UnB) reforça que a atual política prioriza o setor financeiro em detrimento da capacidade produtiva. Para ela, o custo social de manter juros entre os maiores do mundo é pago pela parcela da população que depende de serviços públicos e do poder de compra para necessidades básicas.


Pontos-Chave para Entender o Cenário:

FatorImpacto na Dívida (Segundo o BC)Função na Visão Alternativa
Juros NominaisResponsáveis por +2,4 p.p. de aumento no PIB.Principal vilão do endividamento.
Gastos PrimáriosImpacto menor na dívida bruta.Motor de crescimento e proteção social.
Taxa SelicFerramenta de controle de inflação.Custo de R$ 50 bilhões para a dívida a cada 1% de aumento.

Fonte: Agência Brasil

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