
Redação – A estrada que deveria conectar o Amazonas ao Brasil tornou-se, para muitos, um monumento ao isolamento. O que outrora foi batizado como “Rodovia do Progresso”, hoje é um corredor de obstáculos onde o tempo parece ter estagnado entre o barro e a poeira. A série “Rodovia na Floresta” mergulha no cotidiano de quem transformou a resiliência em rotina às margens da BR-319.
O Êxodo do Abandono
A história da rodovia é marcada por uma ruptura drástica. Em 1988, o fechamento da via não apenas cortou o trânsito de veículos, mas estraçalhou comunidades inteiras. O exemplo de Nilda Castro dos Santos, moradora do Igapó-Açu há quase 50 anos, é o retrato fiel desse declínio: das quase cem famílias que pulsavam na região, apenas cinco resistiram ao silêncio da estrada.

“Ficamos sem o ir e vir”, resume Nilda. Com o asfalto devorado pela selva, a vida passou a ser ditada pelo ritmo lento dos rios, tornando o acesso a médicos e alimentos um luxo de difícil alcance.
Entre Pontes e Pântanos: O Drama Logístico
A deterioração transformou a BR-319 em uma “estrada de eventos”. No Careiro, único município nascido do asfalto, o comércio sobreviveu a duras penas, alternando entre a dependência fluvial e o desafio dos atoleiros.
A fragilidade da via deixou de ser um problema local para se tornar uma tragédia humanitária em momentos críticos:
- Pandemia (2021): O oxigênio que Manaus implorava para respirar ficou retido na lama. Caminhões levaram cinco dias para vencer um trajeto que deveria ser imediato.
- Tragédias Estruturais (2022): O colapso de duas pontes não resultou apenas em perdas materiais, mas em vidas ceifadas, expondo o nível crítico de precariedade.
A Rotina do Imprevisível
Para os caminhoneiros, cruzar o trecho do meio é um exercício de paciência e risco. Onde deveria haver infraestrutura federal, há crateras e lamaçal. Um simples desvio pode significar horas — ou dias — de espera por socorro, como enfrentado pelo motorista Keginaldo da Silva, cujo caminhão foi engolido pelo barro em uma tentativa de manobra.
Atualmente, embora existam frentes de manutenção, a realidade ainda é de uma estrada de chão batido que impõe um ritmo cruel: seis horas de viagem para percorrer trechos que, em condições normais, não tomariam metade do tempo.
Conclusão
A BR-319 hoje é uma via de contrastes. De um lado, a esperança de quem ainda acredita na integração por terra; do outro, a realidade de uma rodovia que, décadas depois, ainda não entregou o futuro que prometeu. Mais do que asfalto, o que os moradores das margens buscam é o fim de um isolamento que já atravessa gerações.
Fonte: G1 Amazonas
