
Redação – Pesquisa inédita que cruzou dados de 1970 a 2023 comprova que, a partir de 2005, a oscilação entre cheias devastadoras e secas históricas ganhou velocidade e intensidade inéditas, sufocando comunidades ribeirinhas.
Um consórcio científico formado por pesquisadores do Brasil, França e Reino Unido acaba de acender um alerta vermelho para o futuro da Amazônia. Publicado na revista Environmental Research Letters, um novo estudo revela que o ciclo hidrológico do Rio Amazonas entrou em uma fase de instabilidade sem precedentes. Desde 2005, o vai e vem das águas rompeu os padrões históricos, alternando cheias e estiagens em níveis muito mais destrutivos.
Diferente de análises anteriores, o grupo de cientistas focou na dinâmica do fluxo que invade as grandes áreas de várzea ao longo de 1.100 quilômetros do rio, combinando modelos computacionais, imagens de satélite e medições históricas de vazão.
O Diagnóstico dos Municípios: Da Força das Cheias ao Calor Mortal
O estudo mapeou quatro regiões estratégicas entre o Amazonas e o Pará (Jatuarana/Manaus, Parintins, Curuai/Santarém e Monte Alegre). Veja os principais cenários identificados:
1. Manaus: Uma oscilação 18% maior
Na capital amazonense, os registros do Porto de Manaus (que datam desde 1902) expõem o tamanho do desequilíbrio. A lacuna entre a vazão máxima e a mínima anual saltou 18% em comparação com o século XX.
O professor Rodrigo de Paiva, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e coautor do estudo, reforça que esse distanciamento estatístico prova o quão severos os extremos se tornaram. Para validar o comportamento histórico da floresta, o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) contribuiu analisando os anéis de crescimento das árvores.
2. Parintins: Vazão de rios gigantes dentro das várzeas
O município testemunhou cheias recordes em 2009 e 2021. O volume de água que inundou as várzeas locais foi tão massivo que se equiparou à vazão total de alguns dos maiores rios do planeta. O impacto imediato foi sentido no bolso e na rotina dos ribeirinhos, com a destruição de lavouras e casas. O relatório alerta para o perigo invisível: a força dessa correnteza acelera a erosão e altera permanentemente a geografia das margens.
3. Tefé: Água a 41°C e colapso ambiental
Embora focado na calha principal, o estudo conectou o drama da seca histórica de 2023 em Tefé a um ecocídio: a temperatura do lago local atingiu alarmantes 41°C, resultando na morte de mais de 200 botos-cor-de-rosa e tucuxis. O Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá colaborou monitorando esses impactos na biodiversidade. Na Amazônia Central, a estiagem dizimou até 80% da área de alguns lagos e reduziu a superfície geral de água em 8%.
A Vegetação de Várzea como Escudo Invisível
Uma das principais conclusões da pesquisa é o papel vital da flora nativa. Árvores, plantas aquáticas e gramíneas de várzea funcionam como verdadeiros “amortecedores”, reduzindo a velocidade da água e segurando o solo contra a força dos rios.
Contudo, os cientistas alertam para uma vulnerabilidade política: a maior parte dessas áreas estratégicas está fora de unidades de conservação ambiental.
“Nosso objetivo é fornecer subsídios e dados consistentes para a formulação de políticas públicas urgentes voltadas à proteção e conservação dessas várzeas”, projeta o ecólogo Jochen Schöngart, do Inpa.

Fonte: G1 Amazonas
