
Redação – Nas últimas semanas, a capital amazonense e dezenas de municípios do estado viram o céu se fechar sob densas camadas de fumaça. O fenômeno chama atenção por um motivo central: muitas vezes, a qualidade do ar piora drasticamente em áreas urbanas que estão a centenas ou até milhares de quilômetros de distância dos focos ativos de fogo.
A situação levou o governo federal a reconhecer, no último sábado, situação de emergência em 36 dos 62 municípios amazonenses — o equivalente a mais da metade do estado. A medida abriu caminho para o envio de recursos, aeronaves de combate, brigadistas e equipes de apoio humanitário. Mas, afinal, como essa fumaça viaja por distâncias tão longas e encobre centros urbanos inteiros?
A Física da Fumaça: Como os Poluentes Atravessam Quilômetros
A capacidade de a fumaça percorrer grandes distâncias está relacionada às características físicas das partículas liberadas pelas queimadas. De acordo com o meteorologista Leonardo Vergasta, esses resíduos são extremamente pequenos e leves, o que lhes permite permanecer suspensos na atmosfera por dias.
“A fumaça é feita de partículas muito pequenas e leves, que ficam suspensas no ar por dias e se movem junto com o vento, quase como folhas levadas por um rio invisível”, resume Vergasta.
Nesta época do ano, marcada pela estiagem na região, os ventos sopram predominantemente de leste e nordeste. Esse corredor atmosférico funciona como uma esteira, transportando os poluentes gerados tanto em áreas próximas quanto em regiões distantes. Sem chuvas frequentes para “lavar” a atmosfera, as partículas continuam acumuladas, resultando em dias sucessivos de névoa densa sobre Manaus.
De Onde Vem o Ar que Manaus Respire?
A meteorologista Andrea Ramos explica que a rota da fumaça é dinâmica e pode mudar de um dia para o outro. O transporte de poluentes não depende apenas do volume de fogo local, mas de um conjunto de variáveis atmosféricas.
“As partículas mais finas podem permanecer suspensas durante horas ou dias e ser transportadas por centenas de quilômetros, dependendo da direção e velocidade dos ventos, da estabilidade atmosférica e da ocorrência ou não de chuva”, aponta Andrea.
Historicamente e por meio de monitoramentos recentes, episódios na capital já foram associados a correntes de fumaça vindas de regiões distantes, como o sul do Amazonas, Rondônia, o norte de Mato Grosso e o Pará. Em outros momentos, a contribuição principal pode vir de municípios mais próximos ou da própria Região Metropolitana de Manaus.
Por esse motivo, especialistas reforçam que analisar apenas o número de focos de calor ao redor da capital é insuficiente. Para compreender a concentração de poluentes, é necessário cruzar dados de satélite, trajetórias de vento, imagens de satélite, índices de precipitação e medições técnicas da qualidade do ar.
A Resposta Institucional e Logística na Região
Com mais da metade dos municípios amazonenses em emergência, as operações de controle e assistência foram intensificadas. O decreto oficializado pelo Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR) visa dar suporte integrado entre União, estado e prefeituras.
Segundo o ministro Waldez Góes, o esforço é duplo: combater as frentes de fogo ativas e, paralelamente, amparar a população que sofre com os impactos na saúde pública.
A mobilização logística envolveu a chegada de aeronaves especializadas do Ibama — como aviões Air Tractor e helicópteros —, além de centenas de brigadistas federais. Uma força-tarefa enviada por São Paulo também reforçou a operação com especialistas, drones e agentes de defesa civil. A Força Aérea Brasileira (FAB) tem atuado com o cargueiro KC-390 Millennium, capaz de lançar grandes volumes de água por voo em áreas críticas, a exemplo de regiões de floresta preservada em Autazes.
Como parte das medidas preventivas voltadas aos moradores, alertas de emergência começaram a ser transmitidos via WhatsApp por canais oficiais, orientando sobre cuidados básicos de saúde, como o uso de máscaras em dias mais críticos, a vedação parcial de residências para conter a entrada de fumaça e a importância da hidratação constante.
Fonte: G1 Amazonas
